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Futebol para melhorar o mundo (5)
 
Autor(a): Salve - Instituto de Luz e Vida



(Esta é a continuação do texto do Projeto "Futebol para melhorar o mundo". Para ver o texto precedente, clique aqui)




ISMAEL E ISAAC

 

Youssuf estava radiante. Ainda nem há quinze dias tinha caído numa tristeza tão profunda que lhe parecia que os treze anos lhe tinham apagado não só a infância como a luz de viver. Ansiava ser já um homem, e do alto dos seus longos treze anos já se achava um homem. Era agora a brincadeira preferida dele: ser homem. Por isso até se revoltava um pouco contra si próprio ao perceber que a sua tristeza tinha começado precisamente no seu aniversário. A mãe tinha-o abraçado com um olhar cheio de amor e pena, enquanto o pai, cabisbaixo, quase não o podendo olhar nos olhos, lhe dizia: “Filho, você sabe que perdi o emprego, você sabe que não me autorizam a ir ao outro lado... os tempos estão difíceis... não podemos te dar um presente. Melhores tempos virão. Deus é grande.” Reparou que o olhar do pai brilhou, molhado, enquanto virava a cara para se esconder. Sentiu pena do pai e repetiu: “Deus é grande.”, apetecendo-lhe detê-lo e abraçá-lo com o amor que lhe tinha, mas já era um homem e conteve-se, enquanto repetia na sua cabeça “Deus é grande!”
Durante aqueles quinze dias vinha repetindo para si próprio que já era responsável e adulto, que era uma criancice, que só um bebé mimalho é que podia ficar triste por não ter um presentinho no seu aniversário. Mas, ao longo desse tempo, começou a aperceber-se que não era essa verdadeiramente a sua tristeza. A sua pena, a sua tristeza, que às vezes era raiva e dor, revolta e zanga, era ver o conflito, a guerra e o medo impregnando as ruas de sua cidade, pairando sobre a sua nação, penetrando as paredes frágeis de sua casa, ameaçando permanentemente quem ele amava. Não havia dúvida: Youssuf estava se tornando adulto.
Mas hoje Youssuf estava radiante.
Entrou de rompante em casa, chamando “Pai! Pai!”. Em dois passos irrompeu na modesta sala, que era usada para as refeições no chão, vendo o pai inclinado sobre o pequeno rádio, onde absorvia as notícias.
– Diz, Youssuf. – respondeu o Pai, sacudido do seu torpor. – Então não se tiram os chinelos? – repreendeu, mas num tom divertido porque naquele momento o filho era como um pequeno sol que lhe entrava pelo casebre com poucas e diminutas janelas, de tão empolgado que vinha.
– Olha, paizinho! Antes de mais quero te dizer que você já me tinha oferecido o presente de aniversário há seis meses.
– Ah é?! Como assim?!
– Quando você me levou nas férias à casa do tio. Primeiro, adorei a viagem, depois foi muito bom voltar a ver meus primos e, depois, meu tio Ibrahim ter a televisão por cabo, não há palavras: pudemos ver a Copa do Mundo de futebol! Não consigo pensar em melhor presente!
Hassan sorriu, com sua dor e preocupação aliviadas pela alegria do filho. “Deus é misericordioso!”, pensou.
– E então? O que é que agora deixou você tão alegre?
– É que na escola o professor nos falou de uma atividade espectacular, um projeto que vai ser feito agora em todas as escolas... e ele disse que ia ser feito nas escolas daqui e nas do outro lado também!
Hassan perdeu o sorriso, uma leve sombra lhe ocupando os olhos.
– Explique lá isso, meu filho...
– Você se lembra da Copa do Mundo de futebol? Cê se lembra que cada equipa, cada país, defendia um... como é que eles diziam?... atributo... é isso... um atributo da alma do futebol, que era um atributo da alma dos homens?
– Sim, Youssuf... – disse o pai, com algum desalento, onde se escondiam opiniões contraditórias, tão definidas quanto confusas, sobre o que ele tinha visto dessa história dos atributos da alma na última Copa do Mundo.
– Pois é, paizinho, as escolas vão fazer uma coisa parecida ou igual, tanto as nossas como as de lá, do outro lado...
– Hm...
– ... e depois os vencedores das nossas escolas vão jogar com os vencedores deles!...
Aí a sombra nos olhos de Hassan carregou-se ainda mais, enquanto baixava o olhar ao peso de apreensões com que não queria atalhar o entusiasmo do seu filho.
– Tretas! – soltou Ahmed, irmão de Youssuf, com a irreverência dos seus quinze anos militantes.
– Ah é?! Então olha p’ra isto...
Youssuf puxou da sacola remendada pelo esmero da sua mãe e retirou um pano cuidadosamente dobrado. Abriu-o sacudindo-o. Era uma camiseta verde com letras de um branco reluzente na semiobscuridade da sala. As letras diziam:

“UMA SÓ NAÇÃO: A TERRA
UMA SÓ RAÇA: A HUMANIDADE
UMA SÓ LÍNGUA: O AMOR
UMA SÓ MOEDA: O SERVIÇO”


– A escola me deu esta camiseta e o professor disse que estas camisetas com estas palavras estão sendo feitas e entregues em escolas de todo o mundo para os alunos fazerem seus próprios campeonatos de futebol...
Virou a camiseta.
– Temos aqui este espaço para escrevermos o atributo que vai ser sorteado à minha turma. Os números também somos nós que pomos, acima desta frase.
E apontou onde dizia

“O MUNDO ENTREGA A ESPERANÇA DA UNIÃO DE TODOS À PALESTINA”


Ahmed interpelou-o bruscamente:
– Espera lá!... as camisetas em todo o mundo dizem isto!?... isto da Palestina!?...
Youssuf riu.
– Não! O professor explicou que se você vive na França aparece França em vez de Palestina, e o mesmo acontece em todos os outros países... cada um em sua própria língua.
– Então você quer dizer que em Israel aparece “O Mundo entrega a Esperança da União de Todos a Israel”? – soltou Ahmed com uma gargalhada forçada. – Oh oh, estamos bem encrencados se o mundo depende de Israel... lá se vai a Esperança...
Youssuf não esmoreceu.
– O professor também explicou por que é que foi escolhida esta frase. Vocês se lembram do que dizia aquele estandarte no início de todos os jogos da Copa do Mundo?
– “A União de Todos é a Alma do Futebol”. – disse Hassan, pausadamente, dando uma entoação algo solene, enquanto Ahmed parecia mais acautelado nas suas reações, sentindo a atenção crescente e interessada do pai.
– E vocês se lembram de qual era o estandarte do país que venceu a Copa, o atributo que ele representava?
– Esperança... – desta vez foi Ahmed quem falou, a meia-voz.
– Então, é por isso que a camiseta fala da “Esperança da União de Todos”. É bonito, não é?!
Hassan e Ahmed só conseguiram assentir com leves gestos afirmativos de cabeça, ficando emudecidos num complexo de sentimentos.
– Pai, o professor também disse que todos os familiares dos alunos que quisessem estavam convidados a irem assistir a uma reunião onde explicam o projeto, amanhã às nove horas da manhã... cê quer vir?
­– Vou tentar, Youssuf... vou tentar. – Hassan estava tendo um ligeiro vislumbre do alcance de tudo aquilo. Perguntou-se se era só o alegre envolvimento de Youssuf ou se devia dar ouvidos ao que talvez fosse uma vozinha longínqua da própria esperança de sua alma que quereria vibrar a rebate daquela “Esperança da União de Todos”.

ФФФ


Yoshua sentia-se ansioso, meio alheado da grande confusão sonora dos alunos irrequietos que se apinhavam no salão principal da escola de seu filho Natanael. Relembrou, com uma pontada de angústia, como Miriam, sua filha mais velha, tinha explodido em lágrimas quando Natanael, na noite anterior, dissera que os vencedores inter-escolas iriam jogar com os vencedores do “outro lado” e que ele iria fazer o máximo para ter essa oportunidade. Sentiu o coração oprimido ao lembrar-se do grito incontido da dor de Miriam: “Cê vai estar com esses bandidos, esses monstros sem coração?”, e fugiu da sala num choro convulsivo, com a mãe correndo atrás dela.
Há dois anos, o namorado de Miriam tinha morrido num ataque suicida terrorista. Era já como um filho para eles, a dor continuava muito viva. Humedeceram-se-lhe os olhos ao pensar: “Mas também é a dor que me traz aqui... ou talvez que já chega de tanto doer... começará aqui uma nova oportunidade?”
Natanael entregava-lhe essa esperança. Sorriu para o filho enquanto pensava como era estranho que Natanael não parecia envolvido nessa cadeia de ódios sem remissão. Parecia passar ao lado, não da dor, porque várias vezes o tinha visto chorar pelos acontecimentos que os atingiram diretamente e pelos que continuavam a afligi-los nesse dia-a-dia tão carregado de perspectivas de medo e morte. Seria talvez o resultado de Yoshua sempre ter lidado profissional e pessoalmente com palestinianos e sempre ter incentivado o filho a brincar com as crianças palestinianas. Com certeza que isso levou Natanael a se sentir criança no meio de crianças, pessoa no meio de pessoas, e não um superior ou um inferior que tinha que lutar com o seu oposto por razões que não eram naturais, razões das quais se tinha perdido verdadeiramente o fio à meada: a uns interessava pensar que a coisa tinha começado no ovo sendo eles a galinha, e aos outros vice-versa. “Mas que interessa isso”, pensava Yoshua, “se estes pequenos homens que começam agora a vida nada têm a ver com isso? É uma guerra tão antiga e estúpida que só espero que estas crianças nos redimam e nos curem”.
Vinha à reunião com muita expectativa. O que Natanael lhe havia transmitido tinha-o entusiasmado. O projeto da FIFA já lhe tinha parecido inestimável, há uns meses atrás, quando viu a Copa do Mundo de futebol. “Não há dúvida: o mundo está doente e é preciso e urgente qualquer perspectiva de cura...” E o que se passava desde há tanto tempo nas próprias ruas e cidades de Israel e Palestina eram feridas expostas, sangrando continuamente, aparentemente sem solução à vista.
Por isso ele tinha vibrado tão intensamente com as mensagens da Copa do Mundo e tinha orado para que essas mensagens viessem a desencadear alterações na humanidade... E, subitamente, surgia agora esta história das escolas... Yoshua estava suspenso na expectativa e maravilhado com a visão demonstrada pela FIFA, porque na realidade tudo começa na educação.
Surgiram meia dúzia de professores que se sentaram atrás da mesa colocada no estrado, no nível superior da enorme sala. Um deles avançou para a frente da mesa, mais perto do público, enquanto o vozerio se ia acalmando até chegar a um silêncio atento.
– Senhoras, senhores, alunas, alunos... como muitos saberão, o que vão ouvir agora nesta sala, nesta escola, está sendo dito ao longo destes próximos dias em todas as escolas de Israel. Mas o que muitos não saberão é que, também ao longo destes próximos dias, isto estará sendo transmitido por professores e agentes educativos em escolas de todo o mundo.
“O projeto que vamos descrever a vocês é promovido globalmente pela FIFA, em conjunto com as mais diversas instituições estatais e privadas dentro de cada nação do planeta.
“O projeto se chama “A UNIÃO DE TODOS PELA ALMA DO FUTEBOL”. Notarão, com certeza, a semelhança com o que presenciámos na última Copa do Mundo de futebol, a qual decorreu sob a égide da “A UNIÃO DOS POVOS É A ALMA DO FUTEBOL”.
“Este projeto decorre em duas vertentes básicas: por um lado é um projeto educativo; por outro lado é um promotor de ações humanitárias. Escolho começar pela exposição da segunda vertente: as ações humanitárias. Para não ser exaustivo e técnico demais, desde já informo que temos boletins informativos à disposição daqueles que queiram saber como serão centralizadas, geridas e dsitribuídas todas as receitas geradas pelo projeto. Para já e aqui só digo que as receitas serão geradas por jogos de apostas, à semelhança do que aconteceu durante a Copa do Mundo, e também pela venda de quaisquer artigos que os alunos queiram criar à volta destes conceitos. Uma percentagem das receitas será entregue ao orçamento de cada escola relativa à qual foram feitas as apostas; outra parte será distribuída pelos vencedores das apostas e o valor restante será enviado para a gestão central, onde, a partir daí, será canalizado para os pontos do planeta mais carentes de recursos, na forma de medicamentos, alimentação e materiais educativos.
“Toda a comunidade está convidada a participar neste jogo de apostas. Vocês vão ver que, além de poderem preencher os boletins de apostas na própria escola, também poderão fazê-lo em qualquer instituição bancária, onde os pagamentos das apostas são imediatamente revertidos para uma conta aberta para o efeito. Isto é possível graças a um convênio estipulado entre a FIFA e esses bancos.
“Agora vamos lá ver como é este jogo. Sr. Ezra, por favor, pode ligar o retroprojetor? Espero que esteja visível para todos.
“Com certeza muitos se lembrarão do jogo de apostas que foi emitido em todo o mundo previamente à realização da fase final da última Copa do Mundo de futebol. Como sabem, foram geradas receitas simplesmente astronômicas, que estão atualmente sendo usadas em intervenções humanitárias em regiões necessitadas. E, meus amigos, saibam desde já que este projeto que agora explico a vocês é devido substancialmente a essas receitas. Os equipamentos de futebol que seus filhos lhes mostraram em casa são resultado direto de todo este movimento. Nos casos em que os agregados familiares se defrontam com nítidas dificuldades financeiras foi determinado também oferecer tênis, além das camisetas e calções que foram entregues a todos. De acordo com a dimensão de cada escola, também estão sendo oferecidas aos estabelecimentos de ensino as bolas da FIFA, como esta que tenho aqui.”
O sr. Ezra fez aparecer o primeiro diapositivo na parede do fundo, que funcionava como tela, enquanto o orador se dirigia à mesa onde outro professor lhe entregou uma bola.
– Como podem ver, é exactamente igual à usada na Copa do Mundo, inclusive tem aqui as inscrições que vimos nesse evento.
Na tela, a imagem ampliada da bola mostrava a todo o auditório a já famosa inscrição:

“UMA SÓ NAÇÃO: A TERRA
UMA SÓ RAÇA: A HUMANIDADE
UMA SÓ LÍNGUA: O AMOR
UMA SÓ MOEDA: O SERVIÇO”


– Sr. Ezra, por favor, passe para o segundo diapositivo. Na outra face da bola vemos outra inscrição:

“A UNIÃO DE TODOS É A ALMA DO FUTEBOL”
“O MUNDO ENTREGA A ESPERANÇA DA UNIÃO DE TODOS A ISRAEL”


“Vocês se lembram de que na Copa do Mundo, nesta face da bola, só estava a primeira frase, “A União de Todos é a Alma do Futebol”, mas, no que respeita a esta nova bola distribuída para este projeto, foi inserida a segunda frase. Talvez alguns de seus filhos já lhes tenham explicado como surgiu esta segunda frase: a equipa vencedora do mundial era portadora do estandarte que tinha o atributo da Esperança, e como a Copa é inspirada e dedicada à União de Todos, todas as nações, todos os homens, surge esta Esperança da União de Todos. Ou seja, durante estes quatro anos é este o ideal que sustenta e dirige todos os projetos humanitários da FIFA. A inscrição também nos diz que o mundo nos entrega a nós, Israel, esta Esperança da União de Todos os Povos. Isto é o mesmo que dizer que entrega a cada um dos israelitas a Esperança da União de todos os homens, israelitas e não israelitas. O que são as nações senão os homens que as constituem? Se não houvesse um israelita não haveria Israel, são as nossas almas que compõem a alma de Israel. Agora, esta entrega da Esperança da União que o mundo faz a Israel está sendo feita pelo mundo a cada uma das nações do planeta, ou seja, a cada um dos homens dessas nações. Então, se mesmo que não seja possível a alguém gastar dinheiro nas apostas, com certeza lhe será possível, se assim o decidir, ter presente em seu pensamento, em suas emoções e em suas ações tentar viver o dia-a-dia no espírito da Esperança da União de todos. Esta seria a sua mais valiosa dádiva ao mundo, mais que o dinheiro que possa doar no jogo de apostas ou de qualquer outra forma.
“Talvez se recordem de alguns dos outros atributos da alma que foram manifestados na Copa do Mundo: por exemplo, a Harmonia, a Paz, a Irmandade, a Amizade, a Sabedoria. Ou seja, se não tivesse sido o vencedor a Esperança, provavelmente estaríamos agora vendo a Paz da União de todos, ou a Sabedoria da União de todos, não é? Uma coisa é certa: que é a Esperança da União senão a Sabedoria da União ou a Irmandade da União? Sem a Amizade, sem a Harmonia, sem a Sabedoria, não há Esperança. É maravilhoso e mágico, vemos que todos os atributos existem contidos em cada um deles. Mas cada um deles tem um sabor e uma cor diferentes e é nesta Esperança da União de todos que somos agora convidados a nos concentrarmos. O mundo está olhando, como nós estaremos olhando cada um dos que compõem o mundo, tentando perceber, compreender e aprender com cada um dos outros como se consegue viver verdadeiramente este espírito da Esperança da União de todos.



ФФФ


Hassan tinha deixado de sofrer com o calor e o sufoco da pequena multidão apinhada no salão principal da escola de Youssuf, tal era a sua atenção nas palavras do professor Mohamed. Há uns bons minutos que Mohamed estava descrevendo os aspectos do projeto “A União de Todos pela Alma do Futebol” e Hassan ia vivendo emoções contraditórias pelo que estava ouvindo. Compreendia e ansiava por este espírito da Esperança da União de todos. Vivia constantemente isso com os vizinhos, ou melhor, quase constantemente. Quase todos se proporcionavam sustentação, talvez por estarem irmanados na pobreza, nas dificuldades materiais e emocionais comuns, talvez por esse sentido de união que liga os que se sentem oprimidos por um invasor. Mas, precisamente por isto, era-lhe dolorosamente difícil fazer a transposição desse espírito da Esperança da União de todos para o Espírito da Esperança da União entre todos os povos. Havia demasiada dor e revolta para com alguns “todos” que não faziam parte da irmandade, para com aqueles que tantas vezes lhe pareciam querer combater o islão. Mas em outros momentos seus preconceitos se atenuavam ao recordar tantos de seus contatos e vivências com muitos israelitas com os quais se sentia acolhido e aceito em suas diferenças culturais, religiosas e de raça. Ele estava suficientemente sensibilizado para vez ou outra lhe ocorrer que se tivesse nascido israelita estaria do outro lado da barreira, sentindo também a revolta, o medo e a dor de ver os seus queridos ameaçados e violentados pelas bombas suicidas. Mas vezes demais o dia-a-dia lhe apagava esse discernimento, e voltava a ser só um palestiniano esmagado pela revolta de ser oprimido, inferiorizado, invadido pelo usurpador. “Não há um fim para isto?”, perguntava-se, “Será para sempre olho por olho, dente por dente, vida por vida? Não será só a morte o resultado desta equação?” Estava cansado e sofria mais que tudo pelos filhos quando imaginava que nada mais haveria para eles senão o que desde sempre lhes tinha sido garantido: dor, medo, violência, opressão, morte. Ah, sim, como aquela Esperança lhe fazia sentido!
E o professor Mohamed continuava sua dissertação, com toda a sala suspensa nas suas palavras:
– Meus irmãos, eu sei que poucos de nós terão possibilidade de pagar para jogar este jogo de apostas, mas, já disse a vocês, o mais importante é jogarmos todos os dias o jogo da vida com esta Esperança no coração porque queremos que nossos filhos venham a construir outra realidade, uma realidade de vida e não de sangue e morte. Então vamos entregar-lhes esta Esperança da União, tal como o mundo a entrega à Palestina, entreguemo-la aos nossos filhos e netos, porque eles são a Palestina de amanhã. Que herança lhes queremos deixar, depois de partirmos?
“Como infelizmente os nossos meios são escassos, seremos daqueles que mais beneficiarão dos recursos recolhidos pelo projeto da FIFA. Às nossas crianças serão oferecidos tênis, além das camisetas e calções, coisa que muito mais raramente acontecerá em regiões como a Europa Central e Ocidental. Receberemos medicamentos e alimentos, receberemos livros, cadernos, canetas, espero que muito mais de tudo o que possam imaginar para a educação das nossas crianças... e tudo isto fruto dos jogos de apostas feitos em escolas por todo o mundo.
“Olhem agora para este quadro. Estes foram os atributos da alma dos homens que foram representados pelos 32 países que participaram na fase final da última Copa do Mundo de futebol:

ESPERANÇA
VISÃO
IRMANDADE
CURA
FORÇA
AMIZADE
LIBERDADE
ORDEM
BELEZA
INSPIRAÇÃO
IGUALDADE
VERDADE
PAZ
CARIDADE
SABEDORIA
HARMONIA


“Pois bem, além destes 32 atributos, há centenas mais, e serão os alunos que decidirão em conselho de turmas quais quererão representar nos seus próprios campeonatos de futebol. Também foi acordado pelos ministérios da educação da Palestina e de Israel que, pelo fato de sermos nações pequenas, com populações pequenas que partilham território comum, haverá uma grande final entre os vencedores palestinianos e os israelitas, como sinal da Esperança dos dois para o bem-estar das gerações presentes e vindouras.
“O que foi proposto pela FIFA, se cada escola quiser e como entender fazer, foi que o assunto do projeto fosse interdisciplinar, isto é, que se aproveitasse estes conceitos dos atributos da alma em todas as disciplinas que fizesse sentido os alunos aprofundarem o assunto, fosse em filosofia, fosse no estudo das línguas, da religião, nas disciplinas ligadas à arte e trabalhos manuais, enfim, onde quer que os alunos pudessem explorar seus mais profundos desejos e anseios de vida e ser. Por outro lado, há tudo o que diz respeito diretamente ao próprio campeonato inter-turmas e inter-escolas, como, por exemplo, a criação e construção dos estandartes e logotipos, os quais seriam da responsabilidade criativa dos alunos.
“Depois de os alunos decidirem os atributos a representar, a escola já estará em condições de emitir seus boletins do jogo de apostas porque, como podem ver, já faz parte do jogo apostar a qual das turmas vai corresponder cada um dos atributos. Aliás, alguns provavelmente se lembram que também foi este o processo usado pela FIFA na Copa do Mundo, quando, na cerimónia do sorteio da distribuição das 32 equipas pelos oito grupos, também se sortearam os atributos que cada uma representaria na Copa.
“Obviamente, esta escola já decidiu que avança com este projeto e estamos felizes por ver o entusiasmo com que as nossas crianças reagiram a isto. A mensagem está passada. Que tanto os alunos como os pais se divirtam com tudo isto, com este grande jogo que será planetário, e fiquem desde já contando que todos os anos teremos esta oportunidade, se Deus assim o quiser e se os homens assim decidirem escolher.”



 ФФФ


Aquele foi um ano diferente para quase todos, pelo menos para os alunos, professores e pais de alunos. Todo um concerto de novas emoções veio se imiscuir em suas vivências diárias. Mesmo oscilando entre emoções contraditórias, parecia que de uma forma generalizada quase todas as pessoas se iam confrontando com novas e diferentes possibilidades, outras visões se clarificavam deixando um perfume de promessas luminosas nas mentes e no ar. Parecia que o encadeamento dos fatos estranhamente não era já tão determinável. Mas haveria alguma coisa concreta, alguma verdadeira alteração nesse encadeamento de fatos? Aparentemente não. Os bombistas suicidas continuaram querendo atalhar o seu caminho para o paraíso, não querendo perceber que estavam simplesmente matando; o governo e exército israelita continuaram destruindo casas e eliminando vírus terroristas, numa profilaxia defensiva, não querendo perceber que estavam simplesmente matando. Os primeiros faziam-no pelo direito à liberdade (entre outras coisas) e os segundos faziam-no pelo direito à vida (entre outras coisas). Enquanto isso, uns e outros, lá iam seguindo sua senda de prenderem a vida, matarem a liberdade, prenderem a liberdade, matarem a vida... Tudo parecia estar como sempre, a rotina não queria desistir de se alimentar do terror. É, por fora parecia que tudo estava na mesma. Mas era estranho. Havia um novo sabor nas coisas, uma expectativa indefinível que estava crescendo... crescendo para onde?... vinda de quê?... Alguns já se perguntavam se seria o fato de seus garotos virem da escola com aqueles trabalhos, aquelas composições sobre os ideais, os tais atributos da alma que estavam explorando. Seria dos jogos de futebol onde os pais os viam jogando, levando em suas camisetas e nas suas intenções aquelas coisas tão belas, mas tão utópicas, como a Amizade, a Beleza, a Inspiração, o Serviço, a Sabedoria, a Pureza, o Conforto, a Misericórdia, o Amor, a Consagração, a Verdade, e tantas outras que seus próprios filhos tinham escolhido defender? Bem, mal não lhes fazia, pensavam muitos pais... e também muitos outros pensavam: “será que serão os nossos filhos a mudarem este estado de coisas?”... e havia ainda alguns, muito poucos, que queriam pensar: “será que as coisas já estão mudando?... será esta estranha e nova sensação o prenúncio da mudança?” Bem, pelo menos parecia que a Esperança da União estava cada vez mais acesa para muitos, mesmo que não o percebessem. Mas os mais idealistas, os mais sonhadores, sentiam que estavam se aproximando do cume dessa Esperança da União de Todos porque estavam na véspera do encontro final entre as suas crianças israelitas e palestinianas no campo de futebol. Seriam as crianças a entregarem-lhes uma nova direção? Seria amanhã finalmente um novo dia?



ФФФ


A bola rolou rápida ao longo da linha lateral, avançando para o extremo, parecendo que se poderia perder na linha de fundo. Mas Youssuf apercebeu-se do lateral direito israelita lançado numa corrida desenfreada. Pareceu a Youssuf que era bem provável que o avançado chegasse a tempo e os seus companheiros ainda estavam afastados da zaga, tentando acompanhar a rápida deslocação de mais dois israelitas a caminho da grande-área.
Não havia que hesitar, o israelita ia chegar à bola. De tão concentrado, não ouvia a multidão, cujo rumor crescia com a iminência da jogada perigosa. Youssuf lançou-se deslizando pelo chão, com todo o ímpeto.
Natanael viu o zagueiro palestiniano se projetando em direção à bola. Tinha que tentar, era possível, estava mais perto que o zagueiro, só um pequeno desvio e podia assistir os dois colegas que vinham mais rápido que os jogadores palestinianos, apanhados de surpresa pelo contra-ataque inesperado.
Natanael conseguiu dar um pequeno desvio à bola, mas já não passou ele mesmo. Youssuf, ao deslizar, sem capacidade de reagir pela rapidez dos movimentos, viu seus próprios pés se erguerem até meio metro depois de terem tabelado numa parte irregular do terreno. Natanael sentiu um baque violento lançando sua perna esquerda contra a direita e se perdeu num torvelinho de cambalhotas incontroláveis. O estádio explodiu.
Em meio à cacofonia ensurdecedora se destacaram insultos raivosos. Hassan ficou colado ao assento, lívido. Notou que o israelita sentado a seu lado deu duas fortes palmadas nas pernas e gritou “Natan!!! Filho!... mas que é isto?!”, enquanto se levantava como uma mola e sacudia os braços com os punhos fechados. Mas Hassan já nem queria saber disso nem dos insultos que se multiplicavam no ar, ficando com os olhos presos em Youssuf que estava com uma atitude consternada. Ele sabia que seu filho não era um fingido.
Youssuf ficou dois segundos sentado, levando as mãos à cabeça: tinha sido sem querer. Natanael tinha rolado uns bons cinco metros e a própria velocidade voltou a pô-lo de pé, notando que não se tinha machucado. Mal se apercebeu das tonturas com a irritação lhe disparando no peito. Avançou rápido para Youssuf com as mãos e dentes crispados.
– Ué, cara?!! – gritou Natanael, embatendo as mãos contra o peito de Youssuf e empurrando-o.
– Filho!!! – gritou preocupado Hassan – Tenha calma!! – e olhou de relance para Yoshua, a seu lado, que também o mirou, surpreendido.
“Essa não, são os nossos filhos... estou ao lado do pai do outro”, pensou Yoshua, confundido pela coincidência, voltando a olhar para o campo com um ar zangado.
– Me desculpa, foi sem querer!! Foi sem querer!! – ia dizendo Youssuf para Natanael, sem tirar as mãos da cabeça e não fazendo o mínimo gesto de defesa.
– E cê não me via chegando primeiro? – rugiu Natanael, vermelho de raiva.
– Meus pés bateram num buraco no gramado... me desculpa! – disse Youssuf, com um gesto apaziguador.
Alguns objetos lançados do público começaram a cair em torno deles. Natanael esfregou a cabeça com as mãos, olhando para o chão, como que tentando dispersar a irritação. Respirou fundo, com as mãos nas ancas, e olhou nos olhos de Youssuf sentindo sua honestidade. Em simultâneo começaram a olhar para as bancadas em redor, despertando para a tempestade que atravessava o público, começando a perceber os insultos que choviam e notando que estes já não visavam Youssuf mas sim a Palestina e Israel.
Então, se encararam novamente, olho no olho, e a surpresa com que se espelharam um no outro dizia um mundo de coisas, era incrível como tantas coisas cabiam em três segundos. De repente ficou tão claro, para um e para o outro, que eles não queriam fazer parte daquela história de ódio. Afinal o que era aquele jogo?
E enquanto as línguas amaldiçoavam e as frustrações e a raiva eram jogadas em todas as direções daquela massa abandonada à reação emocional, Youssuf, lentamente, esticou sua camiseta com ambas as mãos, diante de Natanael, para que ficasse bem clara e legível a palavra que aí estava escrita:


“IRMANDADE”


Natanael reproduziu o mesmo gesto lento e apontou para a sua camiseta, enquanto olhava Youssuf. Na sua lia-se:


“PAZ”


Completamente em sintonia, viraram-se ambos para o público, apontando as palavras nas camisetas, os seus estandartes, os atributos que tinham vindo sentidamente defender.
Ouviu-se o ruído esvaziando. Começou a estabelecer-se um silêncio estranho, onde um ou outro insulto se intimidaram, esmorecidos.
Silêncio total.
Alguém começou a bater palmas… pausadas… ritmadas.
Outros começaram a se juntar, sempre ritmadamente, marcadamente.
Em dez segundos o estádio inteiro fazia parte desse concerto unificado. Parecia que os corações de todos pulsavam junto com o bater das mãos ordenado. Yoshua e Hassan se olharam, sorriram e estenderam as mãos, que apertaram comovidos, enquanto viam os filhos rindo e a quem se iam juntando todos os outros jogadores num abraço apertado.
Parecia que os homens queriam “A IRMANDADE DA PAZ”. Ou será que era “A PAZ DA IRMANDADE”? Bem... não é a mesma coisa?


» FIM «



Carlos Leite da Silva
Editor da revista Luz & Terra

 

                                           

 

 
Data: 04/02/2010
 
Comentários:
 
Nome: Ana Pallito
O mundo pede o outro lado da mesma moeda. A flor do amor.Obrigado querido.
Data: 26/02/2010
 
Nome: Carlos Leite da Silva
Muito obrigado, Ana! Com a presença de Deus em nós, vamos conseguir mudar o mundo para melhor.
Data: 26/02/2010
 
Nome: Marcel Cervantes
Olá meu querido amigo Carlos Leite!! Gostei bastante dessa idéia de usar a paixão, que é praticamente global pelo futebol, para levar valores e ideais ao coração das crianças, dos jovens, dos adultos! Imagina, por exemplo, se um Ronaldinho fosse abrir um torneio desses, como toda a platéia não iria ao delírio por esse campeonato? Olha, se tiver um abaixo-assinado, pode contar comigo. Também mandarei para meus conhecidos e amigos! Outra idéia que tive foi apresentar, de algum modo, para alguma grande instituição. Por exemplo, o Itaú faz comerciais de patrocínio ao futebol e à seleção brasileira, a CBF, etc. Caso este projeto vá adiante, imagina como não seria "rentável" para uma empresa patrocinar a Paz Mundial ou a Esperança no Mundo em um projeto que, de cara, já conta com a paixão de milhares e milhões de crianças que amam o futebol e fariam de tudo para apenas ver um grande jogador? Há um potencial imenso nesse projeto!! Em todos os sentidos, de todos os ângulos! Gostei bastante!! :-) Parabéns pela inciativa, querido amigo!! Já já responderei seu email!! Um forte abraço!! Marcel
Data: 10/03/2010
 
Nome: Lourdes de Almeida
Olá Carlos, Fiquei emocionada com esta história. Creio que teriamos de facto um mundo novo, se todos conseguissemos «..... ter presente em seu pensamento, em suas emoções e em suas ações tentar viver o dia-a-dia no espírito da Esperança da União de todos. Esta seria a sua mais valiosa dádiva ao mundo, mais que o dinheiro que possa doar ......». Um abraço fraterno, Lourdes
Data: 13/03/2010
 
Nome: Antoine H. B. Curti
Não só a esperança, mas também a vontade de melhorar e de ser alguém melhor. Não é dar o braço a torcer, é dar as mãos. Excelente. Grande abraço!
Data: 16/03/2010

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