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Como se vestir para a aventura
 
Autor(a): Márcio Bortolusso

Cansado de informação superficial ou incorreta sendo divulgada durante anos, até mesmo por algumas mídias especializadas e fabricantes, o documentarista Márcio Bortolusso produziu um artigo esclarecedor e de fácil compreensão sobre vestuário para Atividades ao Ar Livre, buscando ser ao mesmo tempo preciso, objetivo e abrangente.

Se para um profissional por vezes é difícil escolher o que vestir em uma aventura, imagina para quem está começando?

Independente se você vai escalar na isolada Groelândia ou passear com a família em Bonito, pode apostar que parte do sucesso de sua viagem dependerá da roupa que você irá usar. Acredite, da mesma forma que por estar com as roupas adequadas realizei com prazer atividades em condições extremas nos Alpes ou na Patagonia, por outro lado, também já vivenciei situações de alto risco ou grande desconforto em simples caminhadas pela Serra do Mar, apenas pela falta de vestuário apropriado.

Para decidir qual a roupa ideal é preciso conhecer o básico sobre os materiais utilizados na confecção das peças e as principais tecnologias do mercado, para um balanço entre os prós e os contras de cada produto.

Com estas informações, explicarei de forma simplificada o famoso Sistema de Camadas, para então dar dicas valiosas na hora de escolher a melhor roupa para a sua aventura.


OS PRINCIPAIS MATERIAIS

Dentre os materiais mais utilizados nas roupas para Aventura estão as revolucionárias fibras sintéticas e os biodegradáveis algodão, seda, lã, pluma e mais recentemente o bambu, cada qual com suas propriedades e recomendações de uso.

Uma das maiores inovações da indústria têxtil foi a criação dos tecidos sintéticos, puros ou mesclados com outros materiais (os bi-componentes), produzidos com micro-filamentos à base de polímeros sintéticos de poliéster, poliacrílico, polipropileno e náilon (poliamida).

Existem 3 tipos de fibras sintéticas, a celulósica (rayon, acetato, viscose), a plástica (em geral do petróleo, como o poliéster) e a mineral (raramente usada na indústria têxtil). Em geral, os sintéticos apresentam várias vantagens em relação aos tecidos naturais, especialmente quando “combinados” ou submetidos à modernas tecnologias: excelente capacidade térmica, secagem rápida, pouco volume, alta resistência, conforto e fácil lavagem. Alguns sintéticos, além de não ficarem “carregados” com a água do suor, pesam metade do peso da lã e possuem excelente desempenho no transporte do suor para o exterior do tecido. Assim como a lã, já existem até fibras sintéticas que mantém as suas características de isolamento térmico mesmo quando molhadas. As desvantagens dos sintéticos variam de tecidos para tecidos, por exemplo: alguns criam mais pilling (as famosas “bolinhas” que se formam em algumas roupas) que o tradicional algodão. A ciência avança, mas “em geral” os sintéticos ainda não alcançaram o conforto do algodão e o poder térmico da pluma e da lã.

O algodão ainda se mantém como um dos materiais mais confortáveis, relativamente leve e fácil de lavar. Além de ventilar razoavelmente bem, quando molhado em dias quentes ajuda o corpo a se resfriar com a água que evapora. Porém o seu uso não é recomendado para atividades físicas, principalmente como Camada Interna, pois ele absorve em suas fibras o suor e pode até mesmo multiplicar o seu peso com a umidade. Quando encharcado, perde a suas propriedades térmicas e demora a secar, esfriando o corpo e tornando-se desconfortável.

Apesar de absorver muita água, a seda seca rápido. Bastante leve e confortável, em dias quentes ajuda a esfriar a pele através da evaporação e, em dias frios, mantém o corpo seco e aquecido. As fibras produzidas pelas lagartas da seda possuem grande resistência, mas perdem em durabilidade para os tecidos sintéticos.

Já a possui uma ótima capacidade térmica, produzindo calor mesmo quando molhada, pois as suas fibras não se deformam quando encharcadas, conservando as micro-câmaras de ar de sua estrutura. Além de possuir baixa retenção de suor em suas fibras, mantendo-se confortável mesmo com a umidade das atividades físicas, requer pouco calor para secar. A lã ainda possui uma ótima capacidade de “retorno” à sua forma original, mesmo após uso excessivo. Como principal desvantagem, apresenta maior volume e peso que os tecidos sintéticos.

Agora em se tratando de isolamento de calor e capacidade de compressão nada se compara à pluma (ou duvet, down, pena de ganso...) com suas excepcionais qualidades térmicas e poder de “retorno”. Bem cuidadas, tem vida útil superior às fibras sintéticas. Só não pode molhar... uma peça de pluma molhada não servirá para nada no frio, ficará pesada e será difícil de secar. Também são mais difíceis de lavar. Mas com certeza os contras da pluma são o seu custo e a tortura com os pobres gansos. É, caso não saiba, as melhores plumas do mercado (como as endem, de origem alemã) são arrancadas na marra do papo das aves. Para cada 300 gramas de plumagem são necessárias cinco “depenadas” por ano! Além de tão caras, nenhuma aventura compensa tamanha maldade.

A cada dia que passa, ouvimos falar de alternativas verdes, ou “menos impactantes”. Afinal, nenhum processo de fabricação industrial, para atender a demanda mundial de produtos (alimentos, bens domésticos, transportes, etc), consegue ser 100 % ecológico. Evoluindo a cada dia, encontramos o algodão biológico e fibras naturais produzidas com algas ou cânhamo, vantajosas em sustentabilidade ambiental quando comparadas às culturas de pinus, acácia e eucalipto, mas infelizmente incipientes para dar conta da demanda global. Na vanguarda da revolução têxtil, principalmente quando falamos de produtos ecológicos, apresentam-se as 100% biodegradáveis fibras de bambu.

Segundo os especialistas em consumo sustentável, diante dos processos de produção têxteis tradicionais – que consomem elevadas taxas de água e energia, ameaçam os lençóis freáticos com os seus dejetos químicos ou necessitam de grandes áreas de plantio – o bambu ganha espaço por sua versatilidade, competitividade e por ser uma ótima alternativa para a nossa dependência das monoculturas florestais: não necessita de pesticidas em sua produção, seu crescimento é muito rápido (atinge sua maturidade em 3 anos), sua propagação é espontânea (dispensa plantio na mesma área por 100 anos e se renova sem a necessidade de replantio), é pouco exigente quanto aos tipos de solo e clima, gera mais oxigênio que as árvores de mesmo porte e ainda favorece a fixação do homem no campo, ao contrário do pinus que possui ciclos de plantio e corte de até 20 anos.

Com cerca de 1.250 espécies, o bambu ainda apresenta outra grande vantagem, além de não amassar e oferecer alta maciez e sensação de frescor (possui boa absorção da umidade e apresenta até 2 graus a menos durante o uso, comparado com outros tecidos), ainda por cima possui bioagentes naturais anti-raios-ultravioleta e anti-bactéria (o “bamboo kun”) que se mantém ainda ativos na estrutura molecular das fibras após a sua produção (segundo cientistas japoneses, mesmo após 50 lavagens e sol contínuo). Resultado: roupas que ajudam a proteger o usuário dos raios nocivos do sol e sem o desagradável odor do suor, com óbvia economia de água e energia e a possibilidade de viajar com menos peso e volume na mochila (menos roupas para mais dias). Mas cuidado, nem toda peça de bambu possui tais propriedades ou com tais níveis de eficiência, daí a necessidade de buscar marcas confiáveis (qualificadas e preocupadas com fabricação com poluição minimizada), algo mais difícil de encontrar nas grandes redes varejistas. Afinal, nem todos os produtos de bambu comercializados são ecológicos, alguns inclusive geram mais impacto nos processos de produção que as danosas culturas de pinus e eucalipto.


AS PRINCIPAIS TECNOLOGIAS

Diferente do tempo dos pioneiros, que se arriscavam em suas jornadas com precárias vestimentas, hoje em dia existe uma grande variedade de roupas no mercado com qualidade suficiente para suprir as necessidades dos usuários. Em grande parte, são produzidas com tecidos desenvolvidos pelas maiores empresas do setor, como Rhodia, Santista, Vicunha e Invista (ex DuPont).

As tecnologias evoluíram a tal ponto que muitas das severas intempéries do passado hoje são enfrentadas com considerável grau de controle e, até mesmo, prazer. Diante de certas “roupas inteligentes”, é como se o sol dos tempos modernos fosse mais ameno, as baixas temperaturas mais agradáveis, a chuva menos incômoda, o vento menos frio.

Seja pela matéria prima ou pela construção dos tecidos, as roupas modernas desenvolvidas para Atividades ao Ar Livre podem apresentar propriedades ativas ou passivas, realizando determinadas funções de forma pré-programada ou não. Por exemplo, alguns tecidos bi-componentes podem absorver a umidade da transpiração e enviar para a parte externa da roupa, por meio da construção de sua trama ou das características de seus filamentos (micro-poros afunilados, micro-cerdas, etc). O mesmo já não ocorre com as passivas e populares peças denominadas como dry, que não apresentam controle sobre a umidade que entra ou sai do tecido, secam pela evaporação natural de sua fina e telada estrutura.

Existe uma infinidade de tecidos e tecnologias no mercado, impossíveis de serem citados em um único artigo. Desenvolvidas por empresas norte-americanas pioneiras e líderes do mercado, talvez as mais eficientes e reconhecidas tecnologias sejam as dos tecidos da linha Polartec (da Malden Mills, como os modelos Classic, Wind Pro, Power Dry, Thermal Pro, Regulator e Powerstretch) e os sistemas Gore-Tex e Windstopper (da W. L. Gore and Associates), utilizados pelas maiores marcas do cenário Aventura e esportivo mundial, como The North Face, Adidas, Black Diamond, Asics, Lowe Alpine, Nike, Mammut, Puma, Merrel, Salomon, New Balance, Scarpa, La Sportiva, Columbia, entre outras.

Após quase meio século de pesquisas, em 1978 o mundo conheceu o que muitos consideram como uma das maiores revoluções para as Atividades ao Ar Livre em condições adversas, a membrana Gore-Tex. De forma simplificada, cada centímetro quadrado dela contém 3,6 milhões de microporos, sendo que cada um deles é 20 mil vezes menor que uma gotícula de água e 700 vezes maior que uma molécula de vapor. Ou seja, a membrana possui incrível capacidade de repelir a água (inclusive da chuva), mas permite que o vapor da transpiração saia com facilidade.

A variedade de tecidos sintéticos utilizados como isolantes de calor é grande, mas o fleece (ou pile) é a mais versátil tecnologia do mercado, com design, gramatura e uso para todos os gostos. Talvez pelo fato de ser produzido pela pioneira neste tipo de tecido, o Polartec da Malden se tornou a principal referência neste segmento em se tratando de conforto térmico, leveza, durabilidade e respirabilidade. Apenas dando um exemplo, o modelo Power Dry transporta 30% mais umidade da pele para a parte externa do tecido do que produtos de construção mono-componente.

Após a inovação por parte dos pioneiros, algumas grandes indústrias acabaram por desenvolver suas próprias tecnologias, como as eficientes Conduit Silk e 3-Layer Conduit (Mountain Hardwear); a X-Alt (Burlington); as linhas X-Sensor, X-Thermo e X-Power (Solo); H2No, Micro-Tex e Ultrex (Patagonia); Triple Point Ceramic (Lowe Alpine); Aleutian Fleece (parceria Lowe e Malden), entre tantas outras.

Apenas dando um exemplo de até onde a indústria têxtil chegou, as fibras micro-termais Outlast (Outlast Technologies), comumente usadas em meias, conseguem absorver, armazenar, distribuir e dissipar o calor de forma controlada, sem permitir excesso de calor ou frio da pele (tanto no inverno quanto no verão). E por aí vai a evolução dos processos de tecelagem, fibras super resistentes como a Cordura (da Invista); fibras hidrofóbicas como o poliéster, que possui uma superfície não propícia à proliferação de microorganismos (como as bactérias responsáveis pelo desagradável odor da transpiração nas axilas); entre muitos outros incríveis filamentos.


SISTEMA DE CAMADAS

A melhor forma de se vestir para uma aventura é com base no clássico Sistema de Camadas de roupas, combinadas de acordo com o tipo de atividade que se vai praticar, adotando camadas leves de roupas sobrepostas conforme as exigências das condições climáticas e/ou do terreno. Ao invés de uma ou duas camadas pesadas e menos flexíveis, como se usava antigamente no frio, ao adicionar ou subtrair camadas leves e folgadas conforme a necessidade é possível obter um controle maior do micro-ambiente corporal. Sem falar no baixo peso e volume.

Este versátil sistema se resume basicamente nas camadas Interna (também chamada de underwear, base layer ou segunda pele), Intermediária, Térmica (warm layer ou quente) e Protetora (shell ou outerwear), mas obviamente que serão utilizadas quantas camadas forem necessárias, podendo ser apenas uma, como em muitas situações no Brasil.

A Camada Interna é a que fica em contato com a pele, normalmente por baixo de outra (s) camada (S), e tem como principal função manter o corpo confortável, seco e em temperatura agradável. Recomendada para atividades físicas em baixas temperaturas, pode ser curta ou longa e a ideal é a que absorve a umidade do suor e envia para o exterior do tecido, sem encharcar e secando rapidamente. Só para ter uma idéia de sua importância, uma roupa molhada em contato com a pele pode retirar até 25 vezes mais calor do que uma seca.

A Camada Intermediáriase caracteriza pelas roupas casuais (camisetas, calças leves, bermudas, etc), que garantem as necessidades básicas do usuário: conforto, eficácia e segurança. Quando as condições climáticas estão agradáveis, normalmente é usada como única camada.

Já a Camada Térmica, como o próprio nome diz, são roupas usadas em dias frios (como os fleeces), responsáveis por garantir o conforto térmico do usuário, gerando e aprisionando junto da pele o ar aquecido pelo corpo.  

Em geral encontrada nos modelos jaqueta (abertura frontal total), anorak (zíper curto, suficiente apenas para a passagem da cabeça) e parka (aberta como as jaquetas, porém compridas), a Camada Protetora é uma peça impermeável essencial para proteção contra as adversidades naturais (vento, chuva, neve, etc), que minimiza a perda de calor corpóreo. Com vedação e versatilidade distintas (conforme o corte e a quantidade de aberturas), a Camada Protetora deve ser escolhida de acordo com a atividade praticada. Por exemplo, jaquetas são mais fáceis de vestir, porém perdem mais calor que os fechados anoraks conforme a vedação dos zíperes.


COMO ESCOLHER A ROUPA IDEAL

Ok, ok, e o que escolher para a sua aventura? O importante não é a marca, mas sim avaliar a qualidade e os recursos de cada produto, considerando as necessidades prioritárias dos usuários: proteção, conforto e desempenho. Tenha em mente a atividade que irá praticar na hora de avaliar as propriedades do produto que irá usar. A seguir as principais considerações para sua avaliação.

- Proteção, conforto e desempenho:
O ideal é que a roupa seja confortável, para que você tenha prazer enquanto pratica sua atividade. No entanto, ela deve cumprir com as características básicas às quais foi projetada (impermeabilidade, respirabilidade, aquecimento, etc), assegurando desta forma a proteção do praticante. Afinal, é nas condições adversas (chuva, vento, frio, calor, etc) que você vai tirar a prova se a sua roupa é realmente confortável.

Como exemplo, em um gélido dia de inverno na montanha, uma blusa térmica pode aquecer o suficiente para dar conforto e segurança ao usuário, permitindo que o vapor da transpiração seja transportado para fora do tecido enquanto impede que o vento gelado penetre, ao mesmo tempo que agasalhos de qualidade inferior ou usados para fins aos quais não foram projetados podem ocasionar superaquecimento, suador excessivo e posterior resfriamento do corpo devido à umidade no tecido. Ou seja, quando deveria aquecer e proteger com as suas funcionalidades, uma blusa pode acabar com qualquer programa, gerando desde um simples desconforto, um incômodo resfriado ou até mesmo, dependendo da atividade, levando o praticante ao preocupante quadro de hipotermia. Quem se aventura há anos sabe bem do que estou falando.

- Comodidade: Já que estamos falando de conforto, vamos esclarecer alguns fatos. O que faz com que alguém sinta frio ou calor não é simplesmente a temperatura do ar, mas a alteração do sensível micro-clima existente na fina camada de ar localizada entre o corpo e as roupas, que pode ser alterado principalmente pelas condições climáticas do ambiente em que estamos, pela atividade física ou mesmo pelas roupas que usamos. Há registros de pessoas que morreram de hipotermia na tropical Rio de janeiro sob temperaturas de apenas 19 oC, enquanto moradores de cidades do Canadá vivem tranqüilamente sob temperaturas de até 40 oC negativos.

Chamamos de comodidade o estado em que nos sentimos confortáveis, independente da temperatura externa, normalmente quando tal micro-clima mantém-se entre 32 e 35 oC e a umidade relativa do ar está por volta de uns 50%. Basta o corpo começar a suar e ou gelar para começarmos a sentir incômodo, sinal de que não estamos mantendo tal micro-clima equilibrado.

E a principal forma de manter esta comodidade é com a escolha de roupas adequadas de acordo com a atividade que você pretende encarar;

- Termicidade: Faça chuva ou sol... sua roupa tem que manter a sua comodidade.

A regra é um tanto simples: em dias quentes basta uma Camada Intermediária de roupas leves; nos frios, use uma Camada Térmica; nos muito frios, mais uma Camada Interna deve resolver; caso ainda esteja batendo os beiços, vista uma boa Camada Protetora por cima das outras roupas.

Porém atenção, a sua roupa não vai fazer milagres caso você não se cuide. Começou a esquentar, antes de suar, comece a tirar as camadas. Da mesma forma, ao sentir que o corpo começa a esfriar, vista uma nova camada antes de perder calor.

Em dias muito frios no entanto, preste ainda mais atenção às extremidades de seu corpo (mãos, pés e cabeça), os pontos onde mais perdemos o calor corpóreo. Mais da metade do calor perdido pelo nosso organismo provém da cabeça. Basta que a nossa cabeça e o nosso peito se esfrie para que os membros inferiores e superiores tenham a circulação sangüínea reduzida, em prol do reaquecimento das partes vitais. Daí a velha máxima montanhista: “seu pé está gelado, ponha um gorro”.

- Resistência ao vento: Testes mostram que sob 10 oC de temperatura ambiente uma rajada de vento de 50 km/h (como descer uma ladeira de bicicleta) pode transmitir uma sensação térmica de apenas -2 oC! Como a maioria das roupas perde boa parte do isolamento térmico com o vento, surgiram as tecnologias “corta vento”, que impedem que o ar gelado penetre e destrua o micro-clima interno que nos dá conforto;

- Respirabilidade: Agora muita atenção a uma das mais importantes propriedades das roupas para Aventura: ela precisa respirar.

De acordo com o esforço da atividade, com a roupa usada e com as condições climáticas, em repouso nosso organismo chega a perder cerca de 0,06 litro de água por hora. Ao realizar uma pequena caminhada podemos perder cerca de meio litro por hora, em caminhadas mais puxadas até um litro e em baladas extremas até 4 litros de água por hora de esforço.
Portanto, dependendo do uso, na hora de adquirir um casaco “corta vento” dê preferência para peças com tecnologias como a das membranas Windstopper, que graças aos seus bilhões de poros microscópicos apresenta eficaz proteção contra as rajadas de vento e excepcional transpirabilidade.

Normalmente as Camadas Internas respiram super bem, mais ou menos de acordo com o espaçamento de sua trama. Mas fique esperto principalmente com a Camada Protetora, pois de nada lhe adiantará um anorak totalmente impermeável que não permite que o excesso de calor e o suor saiam, o que provavelmente vai resultar em camadas internas encharcadas pelo vapor da transpiração aprisionado. Lembre-se que nosso organismo é como um motor, se não refrigerar ele esquenta demais e uma hora para.

Escolha a sua roupa de acordo com as suas atividades, pois em geral quanto maior a impermeabilidade, menor a respirabilidade dos tecidos;

- Impermeabilidade: Quanto à impermeabilidade, teoricamente os produtos podem ser divididos em Impermeáveis e Semi-impermeáveis, o que algumas marcas denominam como waterproof e water-resistant. Efetivamente, temos produtos: de alta respirabilidade e moderada resistência à água; de boa respirabilidade e alta resistência à água; de moderada respirabilidade e totalmente impermeáveis; e os de baixíssima ou nula respirabilidade, porém completamente impermeáveis. Teoricamente, os produtos vendidos como Impermeáveis devem ser completamente resistentes à água, neve ou vento, com membranas inteligentes ou com estrutura completamente resinada. Mas fique esperto com algumas marcas encontradas no mercado, algumas que vendem gato por lebre e outras que até são impermeáveis (tipo náilon durável coberto com poliuretano, ou PVC), mas como não são transpiráveis transformam a sua bela peça em uma micro-sauna.

Basicamente, os Semi-impermeáveis são produtos confeccionados com tecidos impermeáveis, mas por não terem as costuras seladas acabam deixando passar a umidade pelos minúsculos furos feitos pela agulha durante o processo de fabricação. Ou seja, até resistiriam a uma garoa, mas não à uma chuva mais demorada. Porém estes produtos ganham em respirabilidade em relação aos totalmente impermeáveis, sendo ideais para atividades físicas em regiões mais secas.
Os mais eficientes processos de fabricação de tecidos impermeáveis com propriedades de respirabilidade são a Laminação e a Resinagem. No primeiro, membranas são laminadas sobre bases de náilon ou poliéster (como as tecnologias Gore-tex, X-Alt ou 3-Layer Conduit) e no segundo uma camada de substâncias impermeáveis e respiráveis é incorporada diretamente sobre o tecido (Ultrex, Triple Point Ceramic e Conduit Silk).

Estes tecidos, ainda recebem acabamento hidro-repelente em sua superfície externa, que faz com que a água forme gotas e escorra, antes de ser absorvida;

- Resistência: Obviamente, atividades que envolvem situações com atrito no vestuário (escalada, exploração de cavernas, trilhas acidentadas, etc) exigem roupas mais duráveis, produzidas com tecidos hiper resistentes como a Cordura ou com sistemas como o Rip Stop, trama justa incorporada em determinados tecidos que minimiza os riscos de rasgo acidental.

As melhores roupas impermeáveis recebem ainda um tratamento extra nas áreas de maior atrito, como axilas, cotovelos e joelhos;

- Gramatura: Trata-se da espessura da roupa, que reflete diretamente o volume, o peso, a resistência e a termicidade do produto. Existem várias gramaturas para cada tipo de tecido, dos resistentes aos térmicos. Exemplos óbvios: fleeces mais espessos garantem maior isolamento térmico no frio e roupas mais finas são mais ventiladas;

- Compressibilidade: Melhor ainda se o produto desempenha bem suas funções (térmicas, por exemplo), possui pouco volume devido à sua gramatura e, além disso, ocupa pouco espaço em sua mochila, podendo ser comprimido com facilidade;

- Elasticidade: A elasticidade de alguns tecidos permite que se construam roupas leves e de pouco volume para serem usadas justas ao corpo, capazes de formar poucas dobras nas articulações. Pra quem pratica atividades técnicas, é possível encontrar roupas construídas com fios elásticos de elastano capazes de cumprir com suas necessidades básicas (proteção, termicidade, etc) e ainda minimizar o risco de entrada de ar gelado com os movimentos;

- Meio Ambiente: Sabia que você pode dar uma ajudinha ao planeta ao escolher produtos de empresas ecologicamente responsáveis? Algumas empresas investem um pouco a mais ao fazer a sua parte para preservar a natureza que você tanto ama, como a Malden Mills, que recicla embalagens PET para fabricar alguns dos seus tradicionais casacos Polartec. O mesmo faz a Patagonia na manufatura dos fleeces Synchilla. Um belo exemplo nacional: a cada produto vendido da marca Eco Friend, uma árvore é plantada em uma área de recuperação de mata ciliar no Vale do Paraíba, uma iniciativa da marca Solo em parceria com o Instituto Oikos e com a empresa Santaconstância (saiba mais e veja o replantio em www.ecofriend.com).

Ainda tem dúvidas de como fazer a diferença? Analise o seu comportamento para descobrir qual tipo de roupa você precisa (durável, que não amasse, fácil de lavar, etc), desta forma você conseguirá decidir na balança se vale investir em roupas baseado no processo de fabricação (mais ou menos impactante) ou em compensações a longo prazo. Por exemplo, roupas sintéticas apresentam certo impacto ao meio ambiente quando produzidas, mas podem compensar quando calculamos a economia anual de água e energia dos produtos easy care, que dispensam os abomináveis ferros de passar e secadoras e necessitam de menos lavagens que outros tecidos.

Ahh... e que tal boicotar marcas que não merecem nosso respeito, como já fazem milhares de pessoas ao redor do mundo realmente preocupadas com o futuro do planeta? Pode apostar que são os consumidores que decidirão no futuro se uma empresa continuará ou não a comercializar produtos com penas de ganso, à base de testes com animais ou sem tratamento de dejetos químicos.


DICAS IMPORTANTES PARA A SUA AVENTURA


- Ao comprar: O ideal é experimentar antes, fazendo testes que simulem ao máximo a sua atividade (caminhada, corrida, pedalada...).

Se possível, compre com o máximo de antecedência e use a roupa antes da viagem, para amaciar ou descartar surpresas em sua sonhada aventura. Se não comprometer a durabilidade ou o desempenho do produto, prefira roupas leves. Melhor ainda se a roupa for versátil, podendo ser usada em outras situações. Mas fique muito atento ao seu uso, existem roupas técnicas desenhadas para atividades esportivas (ou profissionais) e modelos casuais voltados ao público fashion da Aventura (com mais visual do que funcionalidade), cada quais com cortes e recursos próprios. Algumas pessoas até podem tirar uma onda com uma roupa de alpinista em Campos de Jordão, mas com certeza iriam sofrer se fossem praticar alguma atividade técnica com peças produzidas por marcas “estilo aventura”;

- O que levar: O ideal é levar somente o que for realmente necessário, com maior ou menor quantidade de “reservas” de acordo com a atividade. Talvez não tenha problema levar uma blusa a mais em uma viagem de carro para Monte Verde, mas com certeza qualquer roupa excedente em uma expedição a remo no Amazonas pode lhe causar inconvenientes. Leve apenas uma muda de roupa reserva para eventual emergência: mudanças climáticas repentinas, um escorregão molhando a sua única meia, etc;

- Kit Reparos: Em atividades extremas, com caráter exploratório, ao invés de roupas reservas (leia agora peso e volume) recomendo levar apenas o necessário e um kit reparos para imprevistos (fita tipo silver tape, fio dental e agulha, canivete, etc). Garanto, ninguém vai reparar no seu traseiro remendado;

- Informe-se:
Tenha o maior número de infos sobre a atividade que vai praticar para determinar o que vai precisar: atividade leve ou pesada (quanto mais roupas, mais peso terá que carregar); aventura seca ou molhada (travessias de rios pedem roupas de secagem rápida, por exemplo); terreno acidentado ou tranqüilo (certas escalaminhadas exigem roupas que resistam bem ao atrito); época do ano (dependendo do mês e região, ocorrem mais ou menos chuvas, frio ou calor... ver a previsão do tempo na prévia da viagem não é má idéia), etc. Inclusive, quanto mais conhecimento adquirir, mais prazerosas e seguras se tornarão suas aventuras: converse com outros praticantes e lojistas, leia as publicações sobre a sua atividade favorita, etc;

- Não gaste, invista: Lembrete importante para não jogar dinheiro fora, assim como chamam toda palha de aço de Bom-Bril, é preciso alertar os praticantes que nem toda blusa térmica é Polartec e nem todo impermeável é Gore-Tex (como muitos confundem ou são enganados por vendedores sem escrúpulos). Pesquise no site dos fabricantes ou converse com o vendedor de sua confiança sobre as vantagens e desvantagens de cada marca e/ou tecnologia. Fique esperto, pois as diferenças são enormes, principalmente para os que consideram cada novo equipo como um ótimo investimento;

- Para maior conforto: Experimente roupas com costuras planas, como as com tecnologia Flat Seam, mais confortáveis e que permitem maior liberdade de movimentos;

- Aprenda com suas experiências: Com base em outras viagens, relembre roupas que foram reutilizadas, o que foi desnecessário, o que funcionou bem, etc;

- Cores e Fator de Proteção UV: Ao contrário do que muitos pensam, roupas escuras absorvem mais calor, no entanto protegem mais a pele da radiação UV. As claras são mais frescas, mas protegem menos e, inclusive, desviam os raios solares para o rosto, que acaba recebendo o dobro de radiação desta forma. O ideal são peças de poliéster, que transpiram e não esquentam, ou roupas com Fator de Proteção Ultravioleta, algumas tratadas com as mesmas substâncias dos cosméticos. Roupas coloridas facilitam um possível resgate em atividades de risco e tons neutros reduzem o impacto visual em áreas muito freqüentadas;

- Ao escolher uma Camada Protetora (jaqueta, anorak, etc):
Lembre-se, ela deve ser um pouco maior que as camadas internas, para manter seu conforto e não prender seus movimentos, se estendendo um pouco abaixo dos quadris (com ajustes de pressão na cintura, tipo velcro, elástico, etc); deve permitir acesso aos bolsos mesmo com luvas; as mangas devem cobrir os punhos e ter reguladores (elástico, velcro, etc); os melhores zíperes são bem isolados e possuem dentes grandes, que os tornam mais resistentes; o ideal é que tenha um capuz grande o suficiente para cobrir um capacete e viseira para proteger o seu rosto da chuva; sem esquecer que testes provaram que uma simples gola pode acrescentar até 3º C à termicidade obtida de uma blusa.

É isso aí, na próxima vez que bater aquela dúvida sobre que roupa vestir em sua próxima aventura, você vai se sair bem.

Até a próxima!



Autor: Márcio Bortolusso
Fonte: Photoverde
A Photoverde é a personificação do sonho do casal de documentaristas Fernanda Lupo e Márcio Bortolusso de viver do que amam: produção de imagens, ambientes naturais e grandes desafios.


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Data: 07/02/2010
 
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