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CRAP, o manual de crítica de arte
 
Autor(a): Renato Alarcão (texto e ilustrações)





Dizem que o "beijo da morte", para um artista, é ter seu trabalho rotulado de “ilustração”, esta arte menor, que atende a interesses puramente comerciais, dizem. 

O que falta para os ilustradores conquistarem algum respeito por seu trabalho não é arte, mas simplesmente o discurso artístico, a verborragia filosófica que agrega valor ao trabalho. 

Faltava!

Após muitos estudos, elaborei um sistema bastante simplificado que permitirá a qualquer um – inclusive um ilustrador – falar como um verdadeiro artista! 

Veja abaixo como funciona o "Manual de Crítica de Arte Instantânea":

Sentindo-se verbalmente desarticulado? Criticamente sem palavras? Ou simplesmente lamenta a falta de eloquência ao deparar-se com o mundo das Beaux Arts?

O Manual de Frases Instantâneas para Crítica Artística, também chamado CRAP (um acrônimo derivado do termo em inglês Critical Response to the Art Product) é a solução do problema de quem não encontra palavras para descrever com inteligência aquilo que seus olhos vêem.

Selecione aleatoriamente, nas tabelas abaixo, um número de cinco dígitos, por exemplo 86491, e então leia a frase “8” da tabela "A", seguida pela frase "6" da tabela "B" e assim por diante. Caso queira, adicione mais números para formar declarações CRAP ainda mais elaboradas. Depois de dominada a técnica, você pode vir a desenvolver o máximo do potencial CRAP, através da reorganização das frases em ordem DBCAE, BDACE, etc. Em breve estas frases estarão naturalmente incorporadas a seu discurso artístico natural e você rapidamente colherá elogios à sua erudição e insight. Em geral, quem domina o discurso CRAP consegue até cobrar mais caro por seu trabalho do que seus colegas verbalmente desarticulados.





TABELA A
1) O que me perturba neste trabalho é a forma pela qual
2) Em consideração à questão do conteúdo, nota-se que
3) Eu percebo uma certa carga emocional pela forma com a qual
4) Deve-se, ainda, acrescentar que
5) Eu concordo/discordo de algumas coisas que foram ditas, mas
6) Embora não seja um artista, acho que
7) Bem… (respiração profunda e mão no queixo)
8) É de certa forma difícil captar a intenção do artista por causa do(a)
9) Surpreende-me que ninguém ainda tenha mencionado que
10) Como advogado da estética imediatista, da fruição instantânea, sinto que

TABELA B
1) a dinâmica interna
2) a sublime beleza
3) a perturbação disjuntiva
4) as sugestões ópticas
5) as qualidades redutivas
6) o discurso visual subliminar
7) a iconicidade
8) a aura
9) o registro mecânico do gesto
10) as ressonâncias metafóricas

TABELA C
1) das formas biomórficas
2) das significantes de caráter sexual
3) da interrelação dos espaços negativo versus positivo
4) sugerida na fatura da pincelada, na expressão gráfica
5) da pureza das linhas, formas e cores
6) as referências naïf e ou primitivistas
7) da tensão erótica
8) da narrativa pictórica
9) do discurso imagístico
10) de inspiração puramente filosófica

TABELA D
1) versa com eloqüência sobre os signos e codificantes que marcam
2) parece perturbador à luz de
3) contextualiza
4) põe em perigo a simplicidade desviante
5) traz para si no reino do discurso visual
6) torna ressonante
7) não somente torna visível, mas conceitualmente promove
8) denota
9) gera um desequilíbrio espacial que se distancia da
10) ameaça penetrar

TABELA E
1) a acessibilidade do trabalho
2) a participação da obra no diálogo crítico das artes visuais do século XXI
3) as questões da modernidade.
4) a confluência dos valores clássicos e contemporâneos.
5) a inerente interespecificidade cromática do conjunto.
6) as distintas justaposições formais
7) as qualidades transitórias essenciais da obra.
8) a trajetória do artista num contexto mais amplo
9) a subestrutura do pensamento crítico
10) a exploração das proposições representacionais.

Veja este exemplo: o número de 5 dígitos proposto no parágrafo inicial (86491) produziria a seguinte declaração CRAP:

"É de certa forma difícil captar a intenção do artista por causa do discurso visual subliminar sugerido na fatura da pincelada, na expressão gráfica, o que gera um desequilíbrio espacial que se distancia da acessibilidade do trabalho".

Vá em frente, pratique o CRAP, divulgue, vamos tornar o mundo da arte acessível a todos!






Sobre o autor:



Designer gráfico com mestrado em ilustração pela School of Visual Arts de Nova York, Renato Alarcão tem trabalhos publicados no jornal The New York Times, na Folha de São Paulo, no anuário da Society of Illustrators (NY), além de diversas revistas e livros dos EUA e Brasil. Suas ilustrações já participaram de exposições no American Institute for the Graphic Arts (AIGA), na New York Public Library, na Bienal de Bratislava e também em Tóquio, quando ganhou o prêmio NOMA para livros ilustrados (uma competição patrocinada pela UNESCO do Japão). Atualmente Alarcão divide-se entre diversos projetos editoriais, participando também da Sociedade dos Ilustradores do Brasil (da qual foi um dos fundadores), além de promover diversos cursos em seu ateliê-escola, o Estúdio Marimbondo. O artista também realiza palestras, cursos e workshops em diversas cidades do país.

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"O que mais me estimula no meu ofício de ilustrar é encarar diariamente a página em branco, e dali inventar mundos e gentes; dar visualidade à palavra" (Renato Alarcão).


Website: http://www.renatoalarcao.com.br/
Blog:http://www.renatoalarcao.com.br/blog




Para ver mais ilustrações do autor:

Título: 36 vistas do Cristo Redentor
Autor: Renato Alarcão

Sinopse:
Quão distante ainda é possível vê-lo na paisagem? Em que situações improváveis podemos encontrá-lo? Que pessoas vivem sob seu olhar? Quais janelas o emolduram?
A escolha das ilustrações deste livro busca de alguma maneira estabelecer um diálogo com o observador, seja conduzindo-o a locais desconhecidos do Rio de Janeiro, seja mostrando maneiras novas de observar lugares familiares, ou então buscando estimular alguns vôos interpretativos ou de imaginação. O Cristo está lá sempre presente, ainda que às vezes quase imperceptível, como freqüentemente acontece na vida do carioca
.” (Renato Alarcão).


Nota - Para comprar o livro, clique na ilustração.


 

 
Data: 16/11/2009
 
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