Fernanda Japiassú, sendo uma das inspirações deste pintor “camaleônico” (como ele mesmo se autodefine), é a jornalista em posição privilegiada para revelar-nos um pouco do universo de Celso Mathias e sua arte:
Fernanda Japiassú – Quem é Celso Mathias?
Celso Mathias – Um artista em ebulição. Que começou a desenhar bem cedo alimentado pelo sonho, que até hoje é real em minha vida, de ser um artista verdadeiro, criando com a alma e preocupado com a minha contemporaneidade.
FJ – Quais foram as suas influências?
CM – As minhas maiores influências vieram dos quadrinhos. Desde muito novo colecionava HQs do Flash Gordon, Homem-Aranha, Batman etc. Os anos passaram e, obviamente, as minhas influências artísticas mudaram. Descobri artistas como Frank Frazetta, Norman Rockwell, Rembrandt. Mas o artista chega a um ponto, pelo menos comigo, que as influências começam a escassear e então o olhar é voltado mais para dentro de si. Hoje, verdadeiramente, as minhas referências basicamente são: a minha vida, minhas experiências e meus caminhos. Delas tiro a matéria-prima dos meus trabalhos.
FJ – Ser camaleônico, como se intitula, lhe traz alguma dificuldade?
CM – Não, pelo contrário, abre-me enormes possibilidades em vários campos. Tecnicamente falando, os sentidos são aguçados em relação a todas as informações que lhe chegam. Assim, acaba havendo uma interação maior com vários segmentos artísticos. Hoje tenho amigos caricaturistas, artistas plásticos, poetas, tatuadores etc.
FJ – O que foi que o levou a desenvolver todos os estilos em que trabalha?
CM – A princípio, sempre gostei de desenhar e pintar de “tudo”. Acho bacana aqueles artistas que passam a vida toda desenvolvendo somente um estilo de desenho ou pintura. Mas no meu caso acho que isso nunca se dará. Deixo fluir a criatividade… Portanto, uma hora estou produzindo uma série de caricaturas e na outra uma série de grafites surrealistas.
FJ – Existe uma preferência?
CM – Não. A preferência se dá de acordo com o sentimento do momento. A minha alma é quem dita o que quer fazer.
FJ – Por que Rembrandt e Frank Frazetta?
CM – Basicamente Rembrandt me ensinou a pintar. Como sou espiritualizado, acredito que já tenha vivido na Holanda do século XVII, pois minha atração e admiração pelo artista existem há muito tempo. Sou profissional desde os 16 anos e sempre estudei Rembrandt. É o maior mestre do claro e escuro.
Frank Frazetta veio alguns anos depois, ficava impressionado como ele conseguia unir a pintura clássica com temas modernos, como a arte fantástica. Em 2001, lhe enviei um retrato e, para minha surpresa, recebi uma foto dele, autografada, segurando o quadro.
[Nota dos editores – A Luz & Terra foi investigar o site do filho de Frank Frazetta e tratou de traduzir o parágrafo que descreve esta história inspiradora pelo prisma do filho do famoso pintor norte-americano. Inserimos agora a tradução:

"Era a primeira vez em 20 anos que eu tentava fazer outra coisa além de desenhar formigas. Meus pais me aconselhavam a não fazer mais desenhos de formigas, dizendo que eu tinha talento para fazer qualquer coisa que eu quisesse. Talvez… mas se nossa alma não estiver em nossa arte, estaremos apenas nos enganando. Eu tinha dificuldade de me motivar, porque não tinha confiança em mim mesmo, sem falar no fato de eu ser sempre comparado a meu pai. Em 1983, ele me deu aulas e aprendi o básico, mas quanto conseguia me lembrar de 20 anos atrás? Bem, por exemplo, quando iniciei o esboço da figura senti-me bem, mas quando comecei a aplicar tinta ao cenário perdi a confiança e acabei desistindo. Ficava dizendo a mim mesmo: “Como é possível eu pintar um leopardo? Estou apenas me iludindo achando que vou conseguir fazer isso e a apenas dez dias do Natal”. No dia seguinte, tentei novamente, mas sem resultado. Mais uma vez, deixei o quadro de lado e me afastei com um vazio na barriga, sentindo-me um fracassado. Então apareceu uma dádiva de Deus. Um jovem artista do Brasil enviou uma pintura a óleo para meu pai que iluminou o seu dia. Era um agradecimento pessoal pela inspiração que ele havia recebido da obra artística de meu pai. O artista deve ter passado uma ou duas semanas trabalhando nessa pintura, com todas as criaturinhas e texturas envolvidas. Frank permaneceu com ela no colo por mais de uma hora, analisando-a e absorvendo todas as suas maravilhosas qualidades. Ele chamou Ellie ao estúdio e também ela ficou inspirada por essa pintura. Conversaram sobre ela durante horas; até hoje ela está exposta no estúdio de Frank. Este foi meu chamado! Vi a alegria que essa obra trouxe a meus pais, como um jovem de outro país investiu seu todo seu tempo numa pintura, arriscando-se a enviá-la pelo correio na esperança de que seu mentor a visse. Isso me inspirou mais que tudo na vida! Agora eu estava confiante e concentrado, sentindo que também eu podia produzir algo de que meus pais se orgulhassem."
Texto original em: http://www.frazettaartgallery.com/ff/news/HTML/dec_2001.html]
FJ – Em um mercado tão contemporâneo onde se encaixa sua arte?
CM – A minha arte é a expressão da atualidade como a vejo, por isso é admirada. Tenho vários fãs, não só no Brasil como fora dele. A minha preocupação sempre foi a de me sintonizar com a atualidade. Jamais conseguiria pintar hoje o que pintava há 15 anos. A arte tem que ser um reflexo do artista. Portanto, se você evolui, cria novos mundos e se abre pra eles, certamente isso refletirá na sua maneira de enxergá-lo e, consequentemente, na sua arte.
FJ – Copacabana é especial em sua vida e, sendo assim, você registra em seus cartuns pessoas que vivem no bairro, especialmente as que passeiam na Avenida Atlântica. Por que não há destaque para a paisagem tão conhecida mundialmente?
CM – Quando fui morar em Copacabana fiquei extasiado com a diversidade de pessoas. Em um momento, comecei a registrá-las em fotografias. Depois percebi que poderia traduzi-las a partir da minha linguagem artística. Acho que a paisagem desse bairro, a meu ver, fica em terceiro ou quarto plano, pois foi tão massificada no mundo todo que passou a fazer parte do inconsciente coletivo. Foquei na matéria-prima: o “Ser Humano”. É ela que me interessa; é ela que faz a vida em Copacabana ser diferente de tudo. Aos poucos meus trabalhos têm se dirigido para a terceira idade, talvez, por serem eles que mais contextualizam o título de Copacabana – a “Princesinha do Mar”.
FJ – Atualmente vem surgindo uma nova faceta em seu trabalho, a de ser professor…
CM – A vida inteira fui abordado para ensinar o que aprendi desde cedo e sozinho. Sou autodidata e enfrentei sérios problemas. Desta maneira se trabalha no erro e acerto até descobrir atalhos que demoram anos. Atualmente, o mundo gira em uma velocidade enorme e todos querem, num piscar de olhos, aprender o que os mestres demoraram décadas para conseguir.
A minha primeira experiência como professor foi um tanto quanto marcante pra mim. Eu comecei a dar aula de pintura para um senhora de idade amiga da minha mãe, e que veio a falecer dois meses depois. Anos mais tarde, reuni um grupo de amigos tatuadores e resolvi passar tudo o que eu sabia em pintura acrílica. O curso foi um sucesso. Fiz grandes amizades com os alunos, como o meu “pupilo” Geraldo Moreira, que hoje, além de ser meu fã, é o meu grande amigo.
Agora, nesta nova fase, o curso ficou mais estruturado, já que eu e minha esposa, Fernanda Japiassú, formada em Comunicação Social e licenciada em artes, decidimos abrir uma escola de pintura. O curso abrangerá, não somente, os vários estilos dentro da pintura (acrílica, óleo, aquarela, caricaturas) mas o desenho também.
A minha preocupação não é apenas a de ensinar a técnica, mas, também e principalmente, fazer o aluno ter “um olhar” para além da pintura. Fazê-lo perceber o mundo ao seu redor.
FJ – Você é referência para muitos artistas, inclusive crianças. Sendo assim, como se coloca em relação à divulgação de sua arte?
CM – Tenho fãs nos quatro cantos do mundo. Porém, quando percebi que era também referência para artistas de 10, 11 e 15 anos, tudo mudou. A responsabilidade aumenta muito com isso. Você passa a ser meio que guru dessa turma nova. E seus atos, e não somente sua arte, passam a influenciá-los verdadeiramente.
Há alguns anos mudei minha postura, não desenho ou pinto mais armas de fogo. Pelo menos na minha arte o mundo não terá este tipo de referência. Claro, a não ser que tenha como propósito a denúncia da violência. É uma maneira que achei de contribuir com a paz mundial. E você nunca sabe a dimensão da influência que pode ter na vida de um garoto que admira seus trabalhos e, ainda por cima, é um fã.

FJ – Nesses 27 anos de carreira você deve ter muitas histórias…
CM – Histórias é o que não faltam… Já assinei com um pseudônimo italiano durante quase uma década e meia; já quebrei a mão direita e tive que desenhar e pintar com a outra; já me convidaram pra falsificar quadros e eu, é claro, não aceitei… Já inaugurei lojas de Mcdonalds desenhando caricaturas cercado por uma multidão de crianças sem espaço nem pra desenhar… Já conheci celebridades nacionais e internacionais das artes. Enfim, várias histórias… Porém, a melhor delas é viver simplesmente do que sempre sonhei: ser um artista!!
Celso Mathias
Idade: 43
Rio de Janeiro
Website: www.celsomathias.com
Blog: http://artedecelsomathias.blogspot.com
Email: celsomathias@celsomathias.com

O artista Celso Mathias é o que podemos chamar de artista “multimídia”. Transitando entre ilustrações publicitárias, capas de livros, de Cds e Arte Fantástica, aos 43 anos tem uma bagagem profissional que reúne exposições no Brasil e exterior, várias premiações e a característica marcante de estar sempre buscando novos horizontes para a sua arte.
Artista plástico e ilustrador profissional há mais de 25 anos, começou a sua trajetória colaborando com histórias em quadrinhos para a extinta editora Vechi. Não demorou muito a ingressar no circuito de galerias de arte. Com 18 anos já expunha seus trabalhos ao lado de pintores consagrados. Passou a fazer parte de acervos importantes de colecionadores brasileiros. Com seu temperamento inquieto, abriu os braços de sua arte para a publicidade e caricaturas. Trabalhou em campanhas vencedoras: biscoitos Trakinas, biscoitos Clube Social, Castrol, etc, Para grandes agências de publicidade como Giovanni FCB e Ogilvy & Mather, fazendo storyboards, animatics e ilustrações hiper-realistas. Nas caricaturas ingressou há mais de 10 anos ganhando prêmios importantes no circuito de salões de humor.
"Quero ser sempre um artista de muitos braços e estar sempre antenado com a minha contemporaneidade."
Artistas que escreveram sobre Celso Mathias:
"Para quem babou muito como eu, olhando embevecido as fabulosas ilustrações de Frank Frazetta, não conseguirá ficar impassível diante das fantásticas artes fantásticas de Celso Mathias, artista da nova e criativa geração carioca. Com colorido quente, dinamizado com muito humor, suas pinturas e ilustrações transportam-nos para a dimensão onírica, povoada de personagens masculinos e femininos que interagem com seres insólitos nunca antes imaginados. Celso Mathias é um craque que pode ser alinhado com os melhores da arte fantástica internacional."
Julio Y. Shimamoto
(quadrinista e ilustrador)
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"É fácil gostar da arte de Celso Mathias, se ele tivesse nascido há séculos atrás certamente encontraríamos suas obras espalhadas pelos melhores museus do mundo. Seu talento é óbvio, basta olhar para seus quadros. Já estou tão acostumado à excelência de seu virtuosismo que nada que ele pinte me surpreende mais.
Mas estava enganado!
Um dia ele me mandou uma série de desenhos que fez quando machucou sua mão direita. Como não podia ficar sem desenhar, criou garatujas com a esquerda. Foi então que me surpreendi. Eram pequenas obras de arte em gestação. A proto-obra, a pintura antes da pintura… E eram traços, aquarelas, nankins… Uma infinidade de obras por vir, uma prolixidade de estilos e texturas. Fiquei encantado. Era meio obsceno, como penetrar na intimidade do artista ou folhear o caderno secreto de rascunhos de um mestre… Ser testemunha do ato de criação em sua gênese. O Big Bang desse artista, a fonte de todo seu talento…
Agora não digo mais que nada que Celso Mathias faça me surpreende mas torço para que ele me surpreenda novamente".
Cesar Lobo
(ilustrador e quadrinista)
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