Estando em Recife, capital de Pernambuco, a minha primeira providência foi pegar um ônibus na Praia da Boa Viagem em direção ao centro da cidade. Destino: Praça Maciel Pinheiro.
Após 40 minutos de viagem, o ônibus parou no ponto de uma grande avenida movimentada. Desembarquei e andei algumas longas quadras em meio a muito comércio popular, camelôs e pedintes que se aglomeravam no chão das calçadas.
É com pesar que digo que as ruas do centro de Recife estavam fétidas e o lixo se espalhava escancaradamente em frente aos sobrados, cortiços e ao comércio local.
Avistei uma igreja e, em seguida, meu olhar desviou para o lado direito, onde havia a praça que procurava.
Atravessei a rua e pisei a poucos metros de um imenso chafariz. A água jorrava e as pedras e construções ao redor pareciam que não viam sabão há muitos anos.
Uma pequena feira de artesanato com senhoras sentadas em cadeiras de praia ocupava um pequeno espaço ao redor do chafariz. Atrás das senhoras e suas barracas estava a estátua de Clarice Lispector em pedra fincada em meio a um jardim de plantas rasteiras e ervas daninhas nascendo descontroladamente.
Examinei a estátua por todos os ângulos, minuciosamente, até que me senti pronta a tocar nos cabelos petrificados de Clarice. Quem a projetou sabia exatamente o que estava fazendo: uma Clarice de olhos misteriosos e sentada em uma poltrona. Pernas esticadas, uma máquina de escrever em seu colo e uma luminária em pedra com a cúpula entortada. O vestido cobria os joelhos da escritora de pedra e um colar de pérolas de duas voltas adornava seu pescoço e compunha a natureza instigante daquela que já foi carne, ossos e mistério vivo.
Assim sempre imaginei Clarice, tanto nos devaneios, como em fotos antigas presentes em livros bibliográficos, sobretudo na obra de Nádia Battella Gotlib, uma grande estudiosa da vida e obra da escritora.
A uns 20 metros da estátua, numa esquina da Praça com a Travessa do Veras, um sobrado cor-de-rosa continua em pé, carcomido pelo tempo e com uma placa colocada por alguma antiga prefeitura indicando que ali havia sido a morada de Clarice Lispector e família. A placa é antiga, mal cuidada e um tanto ilegível, sendo impossível ler todos os dizeres.
A residência da família Lispector era no segundo andar do sobrado desde o ano de 1924, quando Clarice tinha 4 anos de idade. Anos mais tarde, a família foi para o Rio de Janeiro onde Clarice foi ser estudante de Direito.
Um dia, adulta, ela escreveu: “Minha lembrança é a de olhar pela varanda na Praça Maciel Pinheiro, em Recife, e ter medo de cair: achei tudo alto demais. A casa se acabou? (...) Era pintada de cor-de-rosa. Uma cor acaba? Se desvanece no ar, meu Deus”.
Minha emoção era paradoxal. Alegria e euforia por estar naquela praça onde a menina ucraniana andava, brincava, sonhava e já formulava em sua imaginação suas futuras histórias que inquietariam parte da humanidade; depois, a decepção pelo descaso em que a praça e o sobrado de Clarice se encontram. A memória brasileira sendo carcomida como sobrado clariceano.
Permaneci um longo tempo ali. Andando pela praça, circundando o chafariz, indo e vindo em frente ao sobrado cor-de-rosa e olhando para as duas janelas superiores, imaginando uma cabeça de menina russa que me olharia com medo de cair.
Senti, ou imaginei sentir, a tênue energia de uma menina tímida, alegre e que vivenciava as dificuldades de uma família pobre de imigrantes. Vestida em luto pela morte precoce da mãe, descobrindo o mundo e sua alma criadora. Suas mãozinhas tocavam em todo aquele pequeno mundo sem saber que seria um dos ícones mais fascinantes de nossa cultura.
Clarice dedicou-se à literatura de uma maneira sensível e visceral como poucos. E, fato interessante, ao longo dos anos sua escrita remete à sua infância em Recife e suas experiências de vida na Praça Maciel Macedo e arredores. O povo nordestino norteia sua obra de maneira magistral.
Revoltei-me com a prefeitura de Recife e com o Governo de Pernambuco pelo descaso com que este patrimônio está sendo preservado.
Sonho é um dia voltar àquela Praça e ver a memória acesa e radiante e, quem sabe, seu sobrado cor-de-rosa bem restaurado. Apenas sonho, pois me parece que pouco se importam.
Aparentemente satisfeita com a visita, dei as costas e voltei em direção ao ponto de ônibus. Do outro lado da praça parei em uma barraca de frutas rudimentar e comprei dois cajus maduros por 50 centavos. Não pedi para lavá-los e, creio eu, nem haveria água para isto. Continuei caminhando entre mordidas na carne suculenta do fruto doce.Em pensamento, dei um adeus saudoso à Praça Maciel Pinheiro.
Ana Esterque
Bacharel em Letras, jornalista. Estuda filosofia e dedica-se a escrever lorotas e a pesquisar diversos assuntos.
Seu e-mail:
anaesterque@hotmail.com
Para conhecer ou relembrar Clarice Lispector, leia:
 Título: A descoberta do mundo
Autora: Clarice Lispector
Sinopse:
'A descoberta do mundo' é o primeiro trabalho de crônicas de Clarice. Mais do que ousar em um novo estilo literário, até então incomum em sua obra, a escritora faz desta publicação um diário de bordo da sua vida; paixões, histórias, entrevistas, filmes, e tudo o que participou de alguma forma de sua existência. São 468 crônicas publicadas aos sábados no Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973. O livro é dividido em dias, como se fosse um diário, mas sempre entre realidade e ficção. A vida cotidiana e os acontecimentos no Brasil daquela época permeiam a narrativa e, em meio aos devaneios permanentes que foram marca pessoal da autora, surgem importantes nomes da cultura brasileira e latino-americana.
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