Luz & Terra – Nuno, você tem uma experiência rara. Nos tempos atuais, abriu-se para o homem a possibilidade de viajar por quase todo o planeta, virtualmente, claro. A internet entregou essa possibilidade ao mais comum dos mortais. Mas você tomou uma decisão que é própria de mortais mais incomuns. Você avançou para a descoberta do planeta em experiência direta, “ao vivo”. Como tomou essa decisão?
Nuno Lobito – O mundo é feito de culturas diversas, que desde miúdo me inquietaram pela sua diversidade… Ao ver vários programas de tv em miúdo, isso levou que partisse à descoberta do mundo, não para conhecer o mundo,
mas sim para saber o que eu era nesse mundo. Obviamente, ao viajar cresci como ser humano e, mais que tudo, aprendi a saber o que quero da vida.
Ao mundo devo tudo e com ele sou uma pessoa mais completa. Creio mesmo que a melhor escola da vida é a
viagem, porque nos faz interagir com as pessoas
face to face.
L&T – Feita toda essa experiência de caminhar pelo planeta, você diria que deixou de ter um “lar”, um lugar apropriado para o pouso do guerreiro? Sente que perdeu suas raízes, ou, por outro lado, sente que suas raízes são mais amplas agora?
N. L. – Com 28 anos de mundo e 178 países visitados e a 26 de fechar o globo, entendo que a minha casa é onde vivo, olho sempre o presente e só isso me interessa. Sou budista, o que faz de mim uma pessoa sem fronteiras. Já vivi na Amazônia, em África, na Ásia, mas a minha casa será sempre o presente!... Esteja onde estiver. As minhas raízes são portuguesas, um povo descobridor… E, sem querer ser nacionalista… amo Portugal, mas por vezes é pequenino demais para mim, não pela sua geografia, mas pela mente de algumas aves raras deste país que nada fazem para que ele seja melhor! Refiro-me a religião, a política e aos senhores que decidem! Fico triste por eles, porque os vejo lutar pelo erro do engano! Isso sim, dói-me a alma olhar para Portugal há 500 anos e ver hoje Portugal… mas enfim! Eu faço a minha parte! E todos querem mudar o mundo mas ninguém quer começar por si.
L&T – Qual o lugar que mais “mexeu” com sua alma? Quais as gentes com quem mais se identificou?
N. L. – O lugar que mais mexe comigo é o próximo, porque ainda não o conheço, e a sede de aprender faz com que seja o melhor para mim. Depois de visitá-lo será mais um… e terá sido bom porque terei crescido mais um passo! Dentro do que conheço, a Ásia é o continente que mais me fascina, a sua filosofia de vida mexe comigo e
muito… mas, até hoje, onde aprendi mais foi na Amazônia… aprendi a viver sem nada e com tudo!
L&T – Vivendo, como você tem vivido, essa experiência planetária em primeira mão, você é um observador em posição privilegiada para entregar às pessoas uma visão global. Nosso mote na revista
Luz & Terra é defender que acreditamos que os seres humanos vão viabilizar a humanidade. Você acha que há esperança para a humanidade?
N. L. – Óbvio que a esperança é sempre a última a morrer! Mas este universo tem excesso de população. É
importantíssimo pararmos de procriar. Porquê? Porque tenho um espaço geográfico com 6 que só suporta 3, logo, aí não temos outra alternativa em diminuir a procriação 100 anos para que no próximo século estejamos em sintonia com a Mãe Natureza.
L&T – Conhecendo tantas culturas, qual você acha que seria a via para uma convivência global saudável entre todas elas?
N. L. – A
troca!
L&T – Você é adepto de uma preservação integral das culturas ou entende que há hábitos e crenças culturais que deveriam ser extirpados da vida dos povos?
N. L. – Todas as culturas devem ser preservadas desde que as mesmas não sejam feitas de sacrifício de animais. Por exemplo, em Portugal ainda hoje se batem palmas quando um toiro entra na arena e é espetado com farpas. Isso para mim é um erro grosseiro. Manter uma cultura,
sim! Sacrificar animais por meia dúzia de euros e ainda ver um
show,
não! Basta de ignorância!
L&T – Em sua opinião, acha que há uma ponte de união entre culturas tão diferentes em todo o planeta?
N. L. – Sim, a
natureza é a ponte entre essas culturas, porque todas elas vivem da Mãe Natureza.

L&T – Dê-nos uma perspectiva dos seus livros: que temas explorou em cada um?
N. L. – Um pequeno livro sobre o traje na Índia, em Goa, feito em 1986… não sei se chamarei um livro mas um conjunto de imagens com texto.
Amazônia Oculta,de 1999: um livro cheio de vida, alma e cultura. Todo feito a preto e branco, em filme, e em mais de 15 tribos pela Amazônia, Peru, Colômbia, Brasil, Venezuela etc. Esse livro deu-me um enorme prazer fazê-lo… Dois anos em piroga pelo Amazonas! Demais!
Sons do silêncio, de 2008. Um livro que relata a minha vida na selva e pelo mundo num conjunto de mais de 70 países… uma pequena amostra de como se viaja... muito aquém do que gosto! Mas considero um bom livro, também!
L&T – Já há um próximo livro na forja?
N. L. – Há sim. Creio que em 2010 ou, no máximo, 2011 sairá um livro com 150 países, 150 fotos e 150 artigos! Será um livro forte, com alma, e com uma descrição do que senti em 150 países. O título será
Visões convergentes! Ou
O mundo aos meus olhos! Ainda não tenho a certeza, mas que sairá em 2010 ou 2011, ah isso sim, tenho a certeza, porque só depende de mim e eu
quero!