Amigos leitores,
Continuemos a seguir as pegadas da Flavia em sua aventura no Extremo Oriente... (bota extremo nisso...!)
Este é o capítulo 13 de suas crônicas. Se quiser ler desde o capítulo 1 de seu Diário de Bordo, clique aqui.
Editorial Luz & Terra

Quando pensei em vir para a China, minha principal motivação era a de crescer do ponto de vista profissional. Não estava feliz com minha atuação na área da Psicologia, frustrada de certa forma por acreditar que poderia fazer mais pelos meus pacientes do que me resumir a escutar pacientemente suas mazelas da vida cotidiana semanalmente. Prestes a terminar minha pós-graduação em Acupuntura, ao mesmo tempo não me sentia pronta para atuar nesta área profissional e temia abandonar por completo esta prática após minha graduação, em virtude da impossibilidade de aplicar meu aprendizado na minha clínica cotidiana. Há anos vinha dividindo uma sala com minha irmã na clínica de meu pai, e nos revezávamos nos horários de atendimento em um espaço físico que não comportava atendimentos em Acupuntura – pequena, seria impossível fazer caber uma maca ali dentro. Além disso, nos últimos três anos vinha morando metade da semana em São Paulo, metade em Ilhabela (litoral norte de São Paulo), onde tinha minha casa, minhas cachorras, meu jardim, a qualidade de vida perfeita com a qual todos sonham... Mas um terreno muito pouco fértil para o desenvolvimento de minha vida profissional, o que também me deixava bastante incerta a respeito de tudo.
Do ponto de vista pessoal, a bagunça era maior ainda. A vida instável, metade lá metade cá, me impedia que tivesse um contato constante com quem quer que fosse. Me distanciei dos amigos de São Paulo, mal via minha família e estava perdendo partes valiosas do processo de crescimento do meu irmãozinho de quase quatro anos. Nos últimos anos vinha pulando de um relacionamento amoroso fracassado para outro, me sentindo eternamente insatisfeita, sofrendo por pessoas situações que pouco tinham a ver com aquilo que eu sonhava para mim... Em resumo, tudo estava fora de ordem, bagunçado e revirado; muitas vezes pensava em como mudar tudo o que me fazia insatisfeita, mas os obstáculos pareciam ser muito grandes, altos demais para que eu os transpusesse... Até vir para a China pela primeira vez, há quase um ano atrás. Até perceber o solo fértil para o desenvolvimento da minha prática profissional que estas terras representavam. Até me sentir verdadeiramente satisfeita por passar trinta dias por aqui, respirando, bebendo e vivendo a Medicina Tradicional Chinesa do momento em que acordava até o momento em que ia dormir, todas as noites.
Aqueles trinta dias iniciais, por aqui, tiveram um significado muito especial; foram os momentos em que mais me senti satisfeita nos últimos tempos e, por mais que sentisse saudades da minha casa e da minha família, não conseguia sequer pensar em voltar para o Brasil. Evidentemente que meu estado emocional, quando voltei para casa, era o pior possível. Cansada fisicamente depois de quase dois dias dentro de um avião, esgotada mentalmente por ter finalmente me dado conta de que eu não estava satisfeita, chateada com uma porção de coisas na minha vida que eu não sabia como mudar, mal havia chegado em casa me envolvi em uma discussão muito feia com minha mãe e irmã. Semanas depois, conversando com minha irmã a respeito da situação, ela me disse algo que foi determinante para minha decisão de abandonar tudo e voltar para cá. Muito sabiamente ela me disse: “Uma pessoa que está feliz não tem explosões de ira como a que você teve. E me corrói o coração pensar que você é uma pessoa infeliz”.
Eu, infeliz? Nunca havia ousado juntar estas duas palavras na mesma frase. Quem me conhece sabe que alegria e otimismo são minhas marcas registradas e eu sou a primeira a querer enxergar sempre o lado positivo das coisas, aconteça o que acontecer. Como assim, eu, uma pessoa infeliz? O fato da pessoa a me dizer isso ter sido minha irmã apenas fez com que a colocação fosse ainda mais séria, já que ela é a pessoa que mais me conhece no mundo. Tudo bem, me sentia insatisfeita aqui ou ali, uma hora ou outra da minha rotina maluca, mas daí a estar sendo enxergada pelos outros como uma pessoa infeliz, ah, isso era demais. Pensei e repensei muito sobre esta conversa, rolei na cama à noite atordoada por esta ideia, levei a questão para a terapia... E, depois de examinar tudo o que estava acontecendo na minha vida naqueles tempos, saí da clinica da minha psicóloga chocada com minha própria constatação: super ok, momento confesso... Eu não andava insatisfeita com uma coisa aqui ou outra ali, uma hora ou outra da minha rotina maluca. Eu estava insatisfeita com uma coisa aqui e outra ali, uma hora e outra da minha rotina maluca.
Uma grande contradição se criou na minha cabeça: o que fazer, agora que havia finalmente reconhecido que não estava feliz? Como continuar na mesma vida, na mesma rotina, fazendo as mesmas coisas, depois de descobrir que eu não queria mais nada daquilo? Como psicóloga, eu era a primeira a incentivar meus pacientes a recomeçar do zero se fosse o caso... Como dizer uma coisa e não seguir meu próprio conselho? E, já que permanecer na mesma era impossível... Mudar o quê? Em quê? Mudar para o quê?
Poucas coisas assustam tanto o ser humano como situações novas. Encontramos, na psicologia evolutiva, a explicação para todo este medo, já que a maior garantia de sobrevivência que temos é continuar fazendo a mesma coisa que já estamos habituados a fazer – afinal de contas, foi assim que permanecemos vivos até o presente momento. Mudanças assustam porque não possuímos repertório de resposta para situações novas, não temos garantia nenhuma que ações novas garantam bons resultados; ao mudar arrisca-se tudo e pode-se ganhar nada.
Em uma busca interna pelas coisas que me faziam feliz, fui encontrando a mesma resposta em todas as situações que eu analisava. Meus finais de semana preferidos eram aqueles em que eu tinha meu curso de pós-graduação em acupuntura. Meu hobby preferido há algum tempo vinha sendo o de estudar os assuntos relacionados à medicina tradicional chinesa. Minha viagem preferida até o presente momento tinha sido a viagem para a China – e não pelos lugares que conheci ou amizades que fiz, mas por tudo o que aprendi. Para completar, os momentos em que mais me sentia feliz profissionalmente eram quando usava a acupuntura nos meus atendimentos – mesmo sem maca no consultório.
Além disso, sempre havia tido muita vontade de passar algum tempo fora do País para aprender a me enxergar sozinha longe de tudo e todos, mas nas minhas fantasias este “fora do País” sempre havia sido os EUA, Europa, Austrália, quem sabe. Nunca havia fantasiado em viver fora cercada por pessoas de olhos puxados, hábitos de higiene duvidosos e moda esquizofrênica. Nos meus sonhos de vida no exterior, a China nunca havia sido uma opção – acho que eu nem me lembrava que a China existia quando pensava nisso. Mas as coisas são como são, e quando, novamente em uma sessão de terapia, me dei conta de tudo isso, estava decidido e não havia mais nada que eu pudesse fazer a respeito: sim, eu me mudaria para a China.
Tomar esta decisão foi, e não foi ao mesmo tempo, a coisa mais difícil que fiz na minha vida até hoje. Em primeiro lugar pela maluquice que a ideia era em si mesma – largar meus pacientes, minha estabilidade financeira e minha rotina profissional inteira sem garantia nenhuma de que isso me rendesse resultados positivos. Em segundo lugar, não tenho filhos, mas tenho três cachorras que dependem de mim morando em Ilhabela e eu não conseguia imaginar abandoná-las por tanto tempo. Por último, mas não menos importante, não tinha dinheiro para isso. Todas as minhas economias da vida inteira haviam sido gastas na minha pós-graduação e na minha primeira viagem para cá. Meu único bem do qual poderia me desfazer para conseguir o dinheiro era meu carro.
Digo que esta decisão foi a coisa mais difícil que fiz na vida e ao mesmo tempo não foi porque em momento nenhum, depois de ter tomado esta decisão, mudei de ideia ou me paralisei diante das dificuldades. Três meses depois de ter decidido que voltaria para a China, estava com o carro vendido, passagem comprada, curso pago e dormitório na Universidade devidamente reservado. Diante de tudo o que eu havia refletido, me dado conta, dolorosamente assumido para mim mesma e para os outros, não me via com outra opção a não ser arrumar as malas e pegar aquele avião. Foi quase como se não tivesse sido uma decisão, de fato. Foi quase como se eu não tivesse conduzido as coisas nesse sentido, e sim sido conduzida até aqui, até esses quase quatro meses de China, até esse minuto e esse segundo em que escrevo essas palavras, sentada na minha cama do meu quarto no dormitório da Universidade de Shanghai.
Não tenho palavras para mensurar tudo o que aprendi até agora, profissional e pessoalmente. No que se refere à medicina tradicional chinesa, tive muita sorte com todos os professores e médicos com os quais convivi até agora. Pensar em uma prescrição de tratamento se tornou uma coisa natural e tenho absoluta segurança da minha capacidade profissional. Hoje sinto, dentro de cada célula do meu corpo, que sou habilitada a receber um paciente e ajudá-lo em sua queixa. Criei uma rotina aqui baseada no estudo, e me orgulho da minha capacidade de me manter focada na minha educação ao invés de cair de cara na vida noturna de Shanghai ou em namoricos sem sentido – passatempo predileto de muitos Lao Wais por aqui. Possibilidades profissionais interessantíssimas se descortinam à minha frente na iminência de minha volta ao Brasil, e sei que isto se deve a sementinhas valiosas que plantei com minhas próprias mãozinhas.
Do ponto de vista pessoal, o ganho está sendo valiosíssimo. Aprendi a me virar sozinha e a me sentir segura da pessoa que sou, do que digo e penso, independentemente da opinião de outras pessoas. Conheci pessoas mais do que queridas com as quais pretendo manter contato, descobri que sinto muita falta de pessoas no Brasil com as quais não vinha tendo um relacionamento muito estreito, aprendi que nem todo mundo precisa ser meu melhor amigo – às vezes, ser colega basta. Estou enxergando minha vida de uma forma única e especial, como um caminho lindo que orgulhosamente estou trilhando.
Às vezes as pessoas me dizem que sou corajosa por estar aqui, enfrentando tudo isso, passando o aperto que muitas vezes passo, que elas não teriam o mesmo peito. Minha primeira reação é pensar, “ah, eu não fiz tanta coisa assim, não é um grande feito”, justamente pelo que disse antes: às vezes tenho a sensação de que vir para cá era a única coisa que eu poderia ter feito. E também, devo confessar, tenho a grande tendência de minimizar minhas vitórias e conquistas, como se houvesse um juiz interno rigoroso e superexigente para o qual tudo o que faço não é suficiente. Mas não: é um grande feito. Eu teria outras opções, como a de permanecer na mesma situação fazendo as mesmas coisas que não me satisfaziam, imobilizada pelo medo do novo. Definitivamente abandonar tudo o que eu tinha de seguro na minha vida e tentar o inimaginável não é fácil e nem para qualquer um. Sim, me orgulho disso.

Outro dia Sabrina me disse que minha coluna na Luz & Terra já estava com cara de despedida e que isso dava um aperto no peito. Concordo. Mas é inevitável não ter esta cara, quando já começo a me despedir dos lugares pelos quais ainda ando todos os dias. Impossível não pensar que em breve não estarei aqui todas as vezes que vejo a fantástica vista noturna de Pudong por cima do Rio Huangpu. Inimaginável não contar as semanas e os dias e as horas para estar em casa novamente e tudo o que isto representa, da comida da minha empregada à ideia de me jogar no chão com as minhas cachorras, passando por todos os reencontros que quero ter com todas as pessoas e familiares dos quais tanto sinto falta.

Sei que ainda tenho cinco semanas por aqui e pretendo viver estes dias em toda a sua plenitude e intensidade, como se ao mesmo tempo fosse ficar aqui para sempre. De certa forma, é todo o sempre que conheço hoje, já que minha realidade do aqui e agora são essas ruas e essas pessoas e essa comida e essa rotina. Estou amando e aproveitando até a última gota o curso que atualmente estou fazendo, me sentindo ansiosa pelo próximo e pela minha nova experiência clínica que começa no início de agosto. Mas é assim que tenho vivido: um olho no hoje, outro no futuro que quero construir cercada das pessoas e coisas que eu amo.
Bom seria se pudéssemos ter tudo. Se eu tivesse dinheiro para continuar por aqui por mais tempo, vivendo estas ruas e todas as impressões que Xangai ainda me causa, acompanhada da minha família, dos meus amigos e de todas as coisas que deixei para trás. Bom seria se todas as fotos que tirei ganhassem vida sempre que eu quisesse, se eu pudesse me teletransportar para dentro delas a cada vez que sentisse saudades de alguém. Bom seria poder ficar e partir, ao mesmo tempo. Às vezes sinto medo de pensar que estou voltando para tudo o que amo, mas sem certeza de nada em relação ao futuro. Mas este nada... Este nada até que é bom.
Afinal de contas, quando não se tem nada, pode-se ter tudo.
Flavia Melissa é psicóloga especializada em Psicologia Clínica pelo Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo e pós-graduada em Acupuntura Tradicional Chinesa e Moxibustão pelo CBES - SP. Desde 2002 atua na área clínica, na linha psicodinâmica e transpessoal, utilizando os Florais de Minas como ferramenta auxiliar nos processos de autoconhecimento, relaxamento e bem-estar. Com formação em Acupuntura Tradicional Chinesa e Moxibustão, utiliza a técnica milenar chinesa no tratamento das mais variadas patologias, conciliando ainda Tuiná (massagem terapêutica chinesa), o uso de Ventosas, Acupuntura Auricular e Hai Huá (Acupuntura sem agulhas). Atualmente reside na República Popular da China, em Xangai, onde está se especializando em Medicina Chinesa pela Universidade de Xangai e estagiando em hospitais locais.
Contato: flaviamelissa@hotmail.com
Seu Blog: http://flaviamelissa.wordpress.com/
Para ver todas as matérias da Flavia, clique aqui.
Para saber mais sobre a China, leia:
Título: As boas mulheres da China
Autora: Xinran
Sinopse:
Entre 1989 e 1997, a jornalista Xinran entrevistou mulheres de diferentes idades e condições sociais, a fim de compreender a condição feminina na China moderna. Seu programa de rádio, 'Palavras na brisa noturna', discutia questões sobre as quais poucos ousavam falar, como vida íntima, violência familiar, opressão e homossexualismo. De forma cautelosa e paciente, Xinran colheu inúmeros relatos de mulheres em que predomina a memória da humilhação e do abandono - casamentos forçados, estupros, desilusões amorosas, miséria e preconceito. Nos relatos do livro, a autora possibilita a essas vozes antes silenciadas revelar provações, medos, esperança e uma capacidade de resistência que as permitiu se reerguer e sonhar em meio ao sofrimento extremo.
Nota - Para comprar o livro, clique na capa
Opinião do Leitor:
Ana Paula Pereira:
Emocionante!
Não recomendo este livro somente em uma situação: antes de dormir! As histórias contatadas pela jornalista são tão comoventes que levam o leitor a questionar-se como que podem existir pessoas tão sem coração e com tão grande coração no mundo. Além disso, o livro conduz o leitor a uma reavaliação de sua vida como mulher e/ou rever a admiração que possui pelas mulheres ao seu redor. É uma leitura ''pesada'', com descrições perturbadores em certos momentos mas que realmente vale a pena.
Marcos:
Fascinante
Este livro é um relato triste e ao mesmo tempo interessante sobre a vida das mulheres da China, mostrando todo o seu sofrimento e submissão cultural. Indico este livro, pois é uma ótima leitura como conhecimento geral.
Ione Santos:
Emocionante - Recomendo mil vezes!
São histórias de dor, amor e esperança. Traz alguns elementos culturais e históricos da China, mas na essência é um livro sobre a alma feminina.
Para ver mais declarações de leitores, clique aqui.
Leia também: Testemunhas da China -- vozes de uma geração silenciosa
Autor: Christian Schwartz
Sinopse:
Este livro objetiva transmitir para as gerações mais jovens e 'ocidentalizadas' a experiência dos 'avós' da China moderna. Para elucidar a formação da China contemporânea, o autor foi em busca de homens e mulheres comuns que estão com mais de setenta, oitenta anos (um deles tinha 97 e havia participado da Grande Marcha de Mao Tsetung), das mais diversas regiões e de diferentes estratos sociais, e que sobreviveram à miséria e à fome, à invasão japonesa e à revolução, aos desastres do Grande Salto Adiante e às perseguições e humilhações da Revolução Cultural para chegar à modernização e ao espantoso crescimento econômico do início do século XXI.
Nota - Para comprar o livro, clique na capa.
|
| |
|