Seu José viveu na primeira metade do século passado em uma cidade do sul do Brasil. Era humilde vindo de uma família humilde. Com o seu trabalho conseguia viver e sustentar mulher e dois filhos. Uma vida difícil, mas com pequenas vitórias que lhe permitiram, certa vez, mandar fazer sob encomenda um terno azul-marinho muito bem cortado por um alfaiate de fama na cidade.
Na última prova ficou orgulhosíssimo. Olhava-se no espelho e enchia-se com tamanha elegância que a vestimenta dava ao seu porte largo e alto. Era, definitivamente, sua primeira roupa elegante no alto de sua quinta década de vida.
Pediu para que o alfaiate embrulhasse cuidadosamente o terno e comentou com orgulho: “Este terno eu vou guardar para usar em alguma ocasião muito especial em minha vida”.
Pegou o ônibus, foi para casa e os anos correram.
Com a dedicação incansável ao seu trabalho conseguiu fazer com que os filhos estudassem, construiu sua casa em um grande terreno e comida não faltava em sua mesa.
Anos depois, seu filho mais velho formou-se em engenharia. A esposa de seu José separou o terno novo para a grande noite de formatura; afinal, era o primeiro de toda a família que conseguira um diploma de curso superior.
Seu José manifestou sua indignação: não vestiria o terno tão especial conquistado a tanto custo. “Este terno eu vou usar em um acontecimento realmente muito especial. Hoje ele fica guardado.”
O tempo passou mais um pouco e o mesmo filho se casou. Novamente o terno permaneceu no armário porque ainda, aos olhos do seu José, o evento não era compatível com o terno especial comprado com tanto esforço de economia.
Mais tarde a filha formou-se em direito. Como era de se esperar seu José não se vestiu com o terno azul-marinho.
Anos mais tarde um ataque cardíaco fulminante surpreendeu seu José quando ele saiu do trabalho. Não houve tempo nem de levá-lo ao hospital. Morreu no meio da calçada por entre os passos apressados dos transeuntes.
Na hora de vestir o defunto, a viúva desembrulhou o terno com cheiro de guardado e com o modelo já fora de moda. Seu José, finalmente, foi para o Além vestido para sua ocasião especial.
Lembro-me de uma pessoa que tinha uma pequena empresa em uma área nobre da cidade de São Paulo.
Na sala de espera havia um sofá lindíssimo e confortável na cor branca. Olhar para aquele móvel era um convite para acomodar o corpo e relaxar em meio ao branco fofo do estofado.
A chefe, que escolhera o sofá, só permitia que se sentassem nele os clientes e ai se algum funcionário se sentasse ou apoiasse algum objeto, um pouquinho que fosse, naquela maravilha de móvel.
Motivo: o sofá era branco e o branco suja fácil.
Como os clientes sempre eram prontamente atendidos pela equipe competente da empresa, pode-se dizer que pouquíssimas vezes aquele sofá foi útil, além de servir como um lindo enfeite na sala de espera.
Olhar o objeto e saber - apenas saber - sua serventia, basta?
O objeto que não é aproveitado em sua utilidade para a qual ele foi projetado, basta?
Um sofá onde não se pode sentar continua sendo um sofá? Ou será que se pode inventar um outro nome para tal objeto?
O terno do seu José deixou de ser terno para se transformar em mortalha. Isto basta?
Para alguns parece que basta.
Minha mesa de trabalho é de madeira e tem marcas de fundo de copos gelados que não saem, tem arranhões, além de uma discreta queimadura em uma das bordas por um cigarro esquecido aceso. É um objeto mesa com marcas de tempo e de uso. Como meu corpo e o que coloca vivo o meu corpo.
Tudo sendo gasto pelo uso. E isto, definitivamente, basta.
Ana Esterque
Bacharel em Letras, jornalista. Estuda filosofia e dedica-se a escrever lorotas e a pesquisar diversos assuntos.
Seu e-mail:
anaesterque@hotmail.com
Proposta de leitura muito especial (na verdade, maravilhosa) da Luz & Terra...
um livro que é bestseller mundial que nos dá pistas para viver a vida em plenitude:
Título: Comer, rezar, amar
Autora:Elizabeth Gilbert
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Sinopse:
Em torno dos 30 anos, Elizabeth Gilbert enfrentou uma crise da meia-idade precoce. Tinha tudo que uma americana instruída e ambiciosa teoricamente poderia querer - um marido, uma casa, um projeto a dois de ter filhos e uma carreira de sucesso. Mas em vez de sentir-se feliz e realizada, foi tomada pelo pânico, pela tristeza e pela confusão. Enfrentou um divórcio, uma depressão debilitante e outro amor fracassado, até que se viu tomada por um sentimento de liberdade que ainda não conhecia. Foi quando tomou uma decisão radical - livrou-se de todos os bens materiais, demitiu-se do emprego, e partiu para uma viagem de um ano pelo mundo – sozinha.
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