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Receita de voar
 
Autor(a): Ana Esterque

Era feriado, dia de nada: nada para fazer, nada para falar. Ninguém para visitar, nem receber.

Chegou do mercado e foi despejando cuidadosamente as frutas sobre o balcão da cozinha. As framboesas, as amoras, os morangos, as cerejas. Ah! As cerejas chilenas carnudas, doces, de pele lisa!

Todas as frutas das mais vermelhas que encontrou naquela tarde estavam ao lado da pia.

Vermelhas como suas unhas. Lembrou-se de uma reportagem remota sobre os raríssimos diamantes vermelhos. As frutas vermelhas preciosas da tarde do dia do nada.

Lavou as frutas, uma a uma, sentindo a textura de cada uma delas. A água corrente contrastando com suas mãos brancas e as frutas.

Lavou também a pimenta dedo-de-moça que escolheu com esmero. A mais viva, a maior, a mais suculenta e ao mesmo tempo elegante.

Sutilmente, esticou o tecido de algodão branco, puro e delicado para formar o sachê de especiarias. Acomodou dois pedaços de canela em pau e um generoso galho amassado de alecrim.

Chegou bem perto e aspirou o aroma da terra, do mato, o doce da canela, o adstringente do alecrim.


Na tábua de madeira, com a faca afiada, cortou ao meio o dedo-de-moça. Num instante de distração e mau jeito, o fio da faca encostou sobre seu polegar.

Sentiu um leve ardor balbuciando um “ai” delicado. Largou a faca e observou o corte fino. Tão tênue que parecia nem existir. Demorou quanto? Cinco segundos para sair o filete finíssimo de sangue?

Olhava o minúsculo corte e a delgada linha de sangue que vagarosamente escorria pelo dedo, logo acima de sua unha colorida em vermelho. “Vermelho rústico”: havia dito a manicure no início da semana.

As frutas vermelhas, as unhas em vermelho rústico, o dedo levemente ferido. O corpo rústico como a cor do esmalte?

Concluiu que era apenas a condição humana rústica exposta e escancarada em um simples corte de um milímetro no dedo!

Lembrou-se, inexplicavelmente, da existência da alma. E a alma não é rústica.

Sorriu quando refez a imagem na lembrança de uma amiga pretérita que dizia com deboche engraçado: “o que importa é a alma. As coisas e as pessoas estão aí para nos distrair, mas o que vale mesmo é a alma.”

A lembrança despertou-a para o sangue no dedo. Sanguinho de nada, mas que precisou ser estancado com um guardanapo.

Na caixinha de remédios do banheiro, encontrou um bandeide, que logo resolveu o contratempo.

Hoje ferida; amanhã cicatriz; depois de amanhã talvez seja nada.

Antes de retornar à cozinha abriu o armário da sala e pegou sua garrafa de Sauvignon Blanc, um presente do ano passado vindo de uns conhecidos que diziam terem vivido durante um mês em Bordeaux.

Voltou à cozinha, amarrou o sachê, juntando a metade do dedo-de-moça com a canela e o alecrim.

Reservou um pequeno punhado de cada fruta em uma tigela. Pegou a panela onde despejou o litro de água mineral, o sachê e o açúcar medido a olho.

Abriu a garrafa com o saca-rolhas centenário que foi da avó da avó. In vino veritas, pensou sorrindo e despejando na panela a quantidade de meia garrafa, como sempre fizera com a receita.

Encostou as narinas no gargalo e aspirou profundo a bebida. De imediato entornou na panela mais um pouco de vinho. Afinal, se no vinho está a verdade, deve-se generosidade.

Acendeu o fogo alto até levantar a fervura, deixando-o brando para refogar os ingredientes.

Sentada na cadeira do balcão, vez por outra se levantava para mexer a sopa de frutas vermelhas com a colher.

Quando o caldo ficou espesso como gosta, retirou a panela do fogo e coou com a peneira a cheirosa sopa.

Sua boca salivava ardente de vontade. Tantas vontades nessa vida! Algumas delas tão ardentes, meu Deus!

Naquele momento era a vontade de saborear a sobremesa. A sopa cremosa que se espalha pela língua, pela boca. Doce, refrescante, melado. O doce ideal para o dia do nada!

Com a concha despejou uma porção bem cheia do caldo fumegante no prato fundo. Esperou esfriar um pouco para colocar uma pródiga colher de sorvete de creme bem no centro do prato.

Ao redor espalhou as frutas frescas que estavam reservadas e escolheu um ramo de três folhas frescas de hortelã para estar em cima da bola de sorvete.

“Vai cair, vai cair! Cuidado!”, ouviu, repentinamente, crianças gritando ao longe, interrompendo-a em seu momento.Levando o prato ainda bem quente em suas mãos, correu até a janela para ver o que de tão importante estava prestes a cair.

Lá do alto do prédio viu crianças brincando de empinar pipas. Todas coloridas. Uma delas, a vermelha, pegou uma rajada de vento violenta e estava quase se arrebentando no chão, numa queda rápida e progressiva.

Ficou na ponta dos pés, debruçada à janela, equilibrando o prato em uma das mãos. O corpo tenso de esperança e expectativa para que o menino não a deixasse cair.

Mas a habilidade do menino foi sagaz: esticou a linha e correu para o lado tropeçando nos chinelos que calçava. Conseguiu o impulso de outra corrente de vento e a pipa voltou ao céu de maneira magnífica.

Esqueceu-se do sorvete derretendo no prato que segurava. O creme excedendo-se na sopa de frutas vermelhas sem ao menos ser percebido. O rubro transformando-se em nuanças de rosa: vivas, coloridas, majestosas, como as pipas no céu.Era a sobremesa esquecida por um instante em suas mãos, pois voar é mais importante.






Ana Esterque
Bacharel em Letras, jornalista. Estuda filosofia e dedica-se a escrever lorotas e a pesquisar diversos assuntos.
Seu e-mail:
anaesterque@hotmail.com




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Título: O caçador de pipas
Autor: Khaled Hosseini

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Sinopse:
'O caçador de pipas' conta a história de Amir, um afegão há muito imigrado para os Estados Unidos, que se vê obrigado a acertar as contas com o passado e retorna a seu país de origem. O ponto de partida do livro é a infância do protagonista, quando Cabul ainda não era a capital do país que foi invadido pela União Soviética, dominado pelos talibãs e subjugado pelos Estados Unidos.


 

 
Data: 02/02/2010
 
Comentários:
 
Nome: Ana Lúcia-amiga dentista
Texto lindo...só podia ser de uma pessoa tăo sensível...um grande beijo Ana e muito sucesso!!!!Ana Lúcia.
Data: 03/02/2010

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