Ele meditou por 10 mil horas, escreveu um bestseller com seu pai famoso e se tornou o mais celebrado budista da França – e seu cidadão mais contente. Neste artigo ele fala sobre a “ciência da mente” e como ela pode pôr fim ao sofrimento humano.
Um telefone em cada ouvido e um laptop sobre os joelhos: eis o monge budista que queria levar uma vida tranquila e meditativa, mas a contragosto tornou-se uma estrela da mídia. O livro que escreveu com seu pai – O monge e o filósofo – transformou Matthieu Ricard em uma celebridade, particularmente em seu país natal, a França. Agora – tendo acabado de chegar de sua casa no Nepal – está sentado em um luxuoso apartamento em Paris com um jornalista dos Países Baixos. Alegre, relaxado, o epítome da calma – mas com um telefone em cada mão.
A vida certamente pode dar voltas, particularmente se você é Matthieu Ricard e se vê no meio do jet set parisiense, e rejeita esse estilo de vida. Seu pai, falecido em 2006, era o filósofo Jean-François Ricard, que escreveu uma série de bestsellers, incluindo Nem Marx nem Jesus, sob o nome de “Jean-Françoise Revel”. Ele não ficou exatamente contente quando seu filho anunciou, aos 25 anos, que queria se tornar um budista. Afinal, como seu pai, Matthieu não faz nada pela metade. Ele viajou para o Nepal, vestiu um hábito vermelho e passou períodos em mosteiros sob a orientação de diversos mestres para compreender o tema central do Buda: pôr fim a todo sofrimento – começando pelo próprio. Então, o jovem Ricard estava assim tão infeliz? “Não, de modo algum”, diz ele. “Na verdade eu tinha tudo que um jovem poderia querer.” Seus pais eram um casal maravilhoso que parecia ter uma atração magnética, trazendo para suas vidas todo tipo de pessoas interessantes. O poeta André Breton, o dançarino Maurice Bejart e os pintores Leonora Carrington e Yahne Le Toumelin eram amigos íntimos de sua mãe. Quando seu pai organizava jantares, a lista de convidados incluía pessoas como o cineasta Luis Buñuel, o político Mário Soares (que veio a ser primeiro ministro em Portugal) e o fotógrafo Henri Cartier-Bresson. Um grupo não exatamente tedioso. “E, no entanto”, reflete Matthieu do longo divã no apartamento de sua mãe, “algo continuava a me inquietar. Com frequência eu tinha a desconfortável sensação de que a vida escorria pelos meus dedos – como se eu estivesse usando apenas uma fração do meu potencial. Mas eu não tinha a menor ideia de como entrar em contato com essas possibilidades ocultas”. Além disso, Ricard percebia que o talento que muitos dos amigos de seus pais possuíam não fazia deles, necessariamente, pessoas melhores: “Apesar de suas qualidades artísticas, científicas ou intelectuais, eles não eram melhores nem mais altruístas que ninguém”. Onde posso encontrar homens sábios como Platão ou Sócrates que possam me ensinar sabedoria prática?, pensava Ricard. Quem pode me mostrar o sentido mais profundo da vida e me dar um objetivo nobre pelo que viver? A resposta veio de um lugar inesperado. Um dia, quando visitava um amigo, ele assistiu a alguns curtas-metragens sobre os lamas tibetanos que lhe causaram profunda impressão. “Eu me lembro de pensar: ‘Se é possível a um ser humano alcançar a perfeição, então só pode ser dessa forma.’ Também me dei conta naquele momento de que eu nunca poderia conhecer Platão ou Sócrates. Mas desses homens eu poderia me aproximar diretamente.”
Não muito tempo depois ele viajou para o norte da Índia. Ali, ao pé do Himalaia, conheceu seu primeiro mestre, Kangyur Rinpochee, no verão de 1967. “Fiquei com ele por três semanas, embora não pudéssemos trocar uma só palavra. Eu apenas me sentava à sua frente e desfrutava intensamente da amigável serenidade que ele irradiava”. De volta a Paris, começou a se dar conta do quanto aquele encontro tinha sido importante. Na época, Ricard trabalhava como biólogo molecular no prestigiado Instituto Pasteur, onde pesquisava sob a direção do professor François Jacob, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina dois anos antes. Jacob colocou Ricard em contato com gigantes da ciência, como Jacques Monod e André Lwoff, mas os pensamentos do jovem pesquisador continuavam a vagar. “Eu continuava a pensar no lama”, ele se lembra, “em especial sobre seu modo de ser. Finalmente eu havia encontrado alguém que realmente me inspirava, que poderia dar direção e sentido à minha vida.”
Em 1972, Ricard decidiu ir viver com o lama para poder se dedicar a estudar o que lhe parecia o mais essencial: a ciência da mente. Hoje, sorrindo abertamente, ele diz: “Eu nunca me arrependi nem por um momento”. Na Índia e no Nepal ele entrou em contato com pessoas completamente diferentes da elite parisiense com quem havia crescido. Diz Ricard: “Essas pessoas são muito menos focadas em si mesmas. No Ocidente, há uma forte ênfase na personalidade – no indivíduo – que deve encontrar uma forma original de se expressar, independente de qualquer coisa. Os artistas ocidentais, por exemplo, devem se reinventar continuamente e permitir que sua fantasia reine livremente. Tentam criar mundos imaginários e evocam fortes emoções. Mas os artistas tibetanos usam sua arte para simplesmente tentar sondar a natureza da realidade. Há artistas maravilhosos lá, mas suas personalidades permanecem completamente no fundo. Eles são essencialmente anônimos”. Após a morte de seu primeiro mestre, Kangyur Rinpochee, em 1975, Ricard conheceu seu segundo mestre, Khyentse Rinpoche, com quem permaneceu por 12 anos. “Rinpoche” é um título honorário dado a lamas especiais e significa “o precioso na humanidade”. Em 1979, Ricard foi oficialmente iniciado. “Isso me deu uma esmagadora sensação de liberdade. Eu tinha deixado definitivamente o agitado mundo ocidental, externamente focado, e poderia finalmente passar todo o meu tempo acordando no anonimato.”
Por anos tudo correu conforme o planejado. Ricard teve toda oportunidade de meditar e estudar. Aprendeu a falar o tibetano, traduziu textos antigos, conheceu pessoas espiritualizadas inspiradoras – incluindo o Dalai Lama – e teve tempo para projetos humanitários. Com base em tomografias nos lobos frontais desse meditante, ele foi declarado o homem mais feliz do mundo. Os testes mostraram que ele e outros meditantes – com mais de 10 mil horas sobre o tapete – mostravam mais evidência de emoções positivas no lado esquerdo de seus cérebros, e níveis de emoções negativas abaixo da média no direito. Era a prova científica de que Ricard estava alcançando seu objetivo espiritual: o despertar.
Mas então o mundo veio bater à sua porta. Começou com um telefonema do editor de seu pai, que teve a brilhante ideia de juntar pai e filho para uma discussão sobre todo tipo de questões intelectuais e sociais – um diálogo que ele esperava que finalmente se transformasse em livro. Embora seu relacionamento com seu pai fosse bom, Ricard a princípio teve medo de ser “dilacerado” pelo intelecto afiado desse astuto filósofo. “Por outro lado”, diz ele, “também vi isso como um grande desafio para ver quão bem eu conseguia trazer os conceitos budistas ao exterior e se eles decepcionariam”.
Assim, no verão de 1996, Jean-François voou para o Nepal para passar umas poucas semanas com seu filho. Eles fizeram longas caminhadas nas montanhas e tiveram extensas discussões sobre tudo que era relevante: Deus, religião, política, ética, psicologia, amor, morte e felicidade. Naquele tempo, pai e filho não poderiam saber que a versão publicada de suas conversas iria se tornar um sucesso. O monge e o filósofo virou um bestseller imediato na França. Ricard Pai – que publicava livros desde a década de 1950 – nunca tinha tido um bestseller. Ele e seu filho foram convidados para inúmeros shows na televisão e programas de rádio. O livro foi traduzido para 23 idiomas e esteve na lista dos mais vendidos na França durante nove meses. A força do livro não está apenas nas profundas análises de Jean-François, mas nas explicações claras de Matthieu sobre conceitos complexos. Sua experiência científica ocidental o capacita a clarear antigos princípios budistas de um modo que as pessoas conseguem compreender. O livro contribuiu para o boom do budismo no Ocidente, particularmente na França. Ricard diz que é muito mais que uma moda passageira: “Tem a ver com o fato de que a essência do budismo não é tanto ‘budista’, mas universal. Nesse aspecto, o budismo é mais como uma ciência da mente do que uma religião”. Para Ricard, o budismo é eterno. Ele acredita que a moderna psicologia poderia aprender muito com os insights de Buda sobre nossa libertação do sofrimento. “A psicologia não reconhece as raízes fundamentais do sofrimento e concentra-se apenas nas circunstâncias ou nas emoções negativas causadas por elas. Mas elas não são realmente relevantes porque sempre há uma circunstância ou emoção que surge. A parte mais interessante é se questionar sobre o que está por trás da emoção negativa e o que uma emoção realmente é.” De acordo com Buda, toda emoção negativa é resultado de uma concepção errônea da realidade. Porque a maioria das pessoas não consegue perceber a realidade por trás dos sintomas – a que Buda chama de “vazio” –, elas se apegam às manifestações: pensamentos, emoções, conceitos, coisas materiais, etc. “Porque muitas pessoas não vêem a realidade por aquilo que ela é – uma ilusão que brota do vazio –, adotam uma autoimagem distorcida”, diz Ricard. “As pessoas se identificam com esses fenômenos tangíveis e efetivamente creem que são seus empregos, seu corpo, sua religião ou sua mente. Assim, apegam-se a uma miragem, algo a que chamamos ‘ego’. Porque as pessoas podem perder seu emprego, seu corpo, sua religião ou suas ideias, a maioria delas vive em eterno medo. Este medo leva à emergência de todo tipo de qualidades vis, como o ódio, o desejo, a inveja, a raiva e o orgulho.” Paradoxalmente, você primeiro precisa ter um ego para perceber que ele não existe. De acordo com Ricard, esse é o primeiro passo para o afastamento de sua falsa identidade. Apesar dos 35 anos desbastando-o, ele diz que ainda não está completamente livre de seu ego instalado. Será modéstia? Talvez, já que até o Dalai Lama diz que tem um longo caminho a percorrer, enquanto Ricard diz que tem certeza absoluta de que o Dalai Lama é verdadeiramente iluminado.
Se for esse o caso, como o Dalai Lama o extirpou? Como uma pessoa se torna iluminada? Ricard responde: “O mecanismo com o qual você se liberta da ilusão da manifestação das coisas – inclusive seus próprios pensamentos e emoções – é chamado de ‘libertação dos pensamentos’. Você precisa aprender a interromper o fluxo dos seus pensamentos para poder observá-los a distância. Então você se dá conta de que os pensamentos não são nem duradouros nem intrínsecos. Eles não têm vida própria. Não são coisas de carne e osso que podem machucá-lo. Eles só têm o poder que você lhes der.” Quando você faz isso com frequência, diz ele, o processo de “libertação dos pensamentos” torna-se sua segunda natureza, e os pensamentos e emoções se dissolvem com a mesma rapidez com que surgem. “Nesse ponto, você está completamente no presente, inteiramente no agora”, diz Ricard. “O pensamento linear já não existe – de ‘a’ para ‘b’ para ‘c’ – mas há um saber direto, intuitivo. O resultado é que você se encontra em um estado claro, não-dualista, que pode ser descrito como ‘estar desperto’ ou livre do sofrimento.” Os insights de Buda sobre a natureza dos pensamentos e do vazio do qual surgem são semelhantes àqueles dos cientistas quânticos. Na física quântica, presume-se que todos os fenômenos vêm de um vácuo – o campo quântico ou campo de ponto zero – que carrega em si o potencial para toda manifestação. Quando você vislumbra esse campo subjacente, você “enxerga através” da realidade aparente. Você vê que tudo vem da mesma fonte primária para a qual sempre retorna. Ricard diz: “Quando Buda diz: ‘O vazio é a forma e a forma é o vazio’, isso, numa perspectiva teórica, não é diferente de dizer ‘matéria é energia e energia é matéria’”.
A mãe de Ricard, cujas belas pinturas decoram as paredes do apartamento parisiense, serve chá. Como seu filho, ela trocou a alta costura pelo hábito simples do convento. Ela irradia a mesma intensidade serena. Ambos optaram por uma vida disciplinada na qual a prioridade é o despertar da ilusão. Mas será preciso se distanciar tanto dos prazeres terrenos para poder despertar? Ricard acredita que sim, embora diga que isso não significa que todos tenham de vestir um hábito de monge. “O problema é que há muitas coisas que o distraem do caminho da iluminação. O maior perigo é a ideia de que você possui todo o tempo do mundo. As pessoas com frequência pensam: ‘Primeiro eu vou fazer isso ou aquilo e depois vou levar a espiritualidade a sério’, mas poderá ser tarde demais. Além disso, quando você não dedica tempo à introspecção e à reflexão, sua vida fica sem profundidade. Em consequência, você não consegue dar sentido e valor suficientes a cada momento de sua existência, o que é uma pena.” A paixão e a intensidade de Ricard por um momento vencem sua calma. Ele se inflama, joga seu lenço vermelho de sobre seus ombros e diz com sincero fervor: “Cada momento é tão precioso porque pode ser usado para o seu desenvolvimento no caminho do despertar. Esta não é uma busca egoísta porque só então você poderá ajudar a libertar os outros de seu sofrimento. A melhor maneira de aperfeiçoar seu próprio destino é se preocupar, acima de tudo, com o destino dos outros. Quando você pára de cuidar e proteger seu ego, muita energia é libertada e você tem muito mais influência sobre seu ambiente.” Ricard deve saber. Quando não está meditando ou envolvido em estudo espiritual, passa quase a totalidade do seu tempo administrando um grande número de projetos humanitários. Ele investe o dinheiro que ganha com seus livros e com os volumes de fotografia nesses projetos patrocinados por seu mosteiro; eles ajudam a construir escolas, pontes e hospitais no Tibete. Os projetos requerem sua constante atenção e são um desafio à sua serenidade. Seus telefones tocam constantemente. No entanto, Ricard não sente a obrigação de “amar o próximo”. Por causa de sua experiência budista, ele encara diferentemente os conceitos cristãos de “culpa”, “penitência, “bem” e “mal”. “De uma perspectiva budista, não há contraste entre o ‘bem’ e o ‘mal’”, observa Ricard. “Na verdade, o mal, do modo como o definimos no Ocidente, nem mesmo existe. Ele é apenas uma ilusão, uma visão distorcida da realidade. A verdadeira natureza das coisas é, na verdade, perfeita, mesmo quando essa perfeição é toldada pelos véus da ignorância. E também não existem os conceitos de ‘pecado’ e ‘queda da graça’. A única coisa que acontece é que nos esquecemos de nossa natureza original. Nós simplesmente cochilamos e nos tornamos entorpecidos.” De acordo com Ricard, o contraste ilusório entre o bem e o mal é particularmente traiçoeiro porque muitas pessoas responsabilizam a Deus. “Se você vir a criação como a obra de Deus, o ‘bem’ e o ‘mal’ rapidamente se tornam verdades absolutas – dogmas imutáveis que dominam a mente.” Ele não acredita em um “criador divino” do universo. “Mas”, diz ele, “se você associar Deus à verdade absoluta ou ao amor infinito, consigo me identificar com isso.”
É hora de eu voltar aos Países Baixos. Ricard me acompanha até o ponto de táxi na Place Victor Hugo. Com seu hábito vermelho e braço direito desnudo, sua figura é notável. “Uma bandeira do budismo” – é como chama sua veste. Ele escolheu ser monge em tempo integral, mas me assegura de que, na sua visão, esse passo não é necessário para que se leve uma vida realizada. “Você pode ter uma vida espiritual rica meditando apenas meia hora por dia. “No entanto”, acrescenta em tom caloroso, “meditar não significa se sentar por um momento para se sentir bem-aventurado. É também uma abordagem analítica para sondar a natureza e o funcionamento da mente. Também é preciso estar ‘desperto’ entre as meditações, para que você não retorne aos velhos padrões.” Ricard acredita que a vida contemplativa é essencial em nossa era – não apenas para nós mesmos, mas principalmente por compaixão pelos seres humanos que estão sofrendo. “Mais que nunca é importante que as pessoas acordem para sua própria natureza Buda. Sem valores espirituais, o progresso material terminará apenas em desastre. Mas compreenda o que estou dizendo: não sou, de modo algum, a favor de um tipo antiquado de movimento de retorno à natureza. O importante, para mim, é a qualidade de vida. Os nômades no Tibete nem de longe ‘lucram’ com a vida como um homem de negócios norte-americano, mas eles sabem o que têm de fazer para não desperdiçá-la. Eles sabem o que têm de fazer para despertar.” Mas, enfatiza Ricard, você não precisa ser um nômade nas montanhas do Tibete para provar os verdadeiros tesouros da vida e ser feliz. “Todo ser busca a felicidade. Nós temos direito de nascença a ela. Todo ser tem a habilidade de se tornar um Buda, alcançar a libertação e adquirir perfeito conhecimento.” O táxi se afasta. Pelo espelho, vejo as pessoas se virando para olhar para Ricard enquanto ele desaparece na multidão. Será que o reconhecem da televisão, ou é o hábito vermelho que chama sua atenção? Seja como for, ele mais do que faz jus ao título honorífico que escolheu para si mesmo: a bandeira do budismo.
Matthieu Ricard: Hábitos da Felicidade (parte 1/3)
Matthieu Ricard: Hábitos da Felicidade (parte 2/3)
Matthieu Ricard: Hábitos da Felicidade (parte 3/3)
Título: A fortaleza de neve
Autor: Matthieu Ricard Sinopse:
Lugar sagrado para os budistas, perto dos deuses e não encontrado nos mapas, a 'Fortaleza de Neve' é o destino final da jornada de Détchèn, um bondoso jovem butanês. Um dos principais 'embaixadores' budistas no mundo, o ensaísta Ricard estréia como contista com uma história poética e sábia, que mostra aos corações o caminho da serenidade.